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Andando por Serra Branca (Thomas Bruno Oliveira )

 

 

Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Serra Branca. Primavera de 2021

NUMA CERTA SEXTA-FEIRA me dirigi à querida cidade de Serra Branca, com o compromisso de participar, no dia seguinte, de reunião ordinária do Instituto Histórico e Geográfico de Serra Branca (IHGSB) e, ato contínuo, partilhar de uma entrevista na rádio Serra Branca FM.

 

Ir ao Cariri, para o meu Mundo-Sertão, que mesmo com compromisso, deixa de ser uma tarefa enfadonha e se torna uma agradável experiência de registros memoráveis. Primeiro pelo amor e carinho que tenho por esta terra, pelo Instituto Histórico – nossa casa de memória –, além de sempre rever grandes amigos. Fato é que eu iria apenas no sábado, mas após convites dos amigos José Pequeno (Zezito) e Sérvio Túlio acabei decidindo ir na sexta, pois teria a oportunidade de curtir o amanhecer no sítio Várzea Nova e passear pela feira antes da reunião.

 

No caminho, fui acompanhado por duas grossas pancadas de chuva, apesar de esparsas, pingos de água caiam do céu entremeados pelos raios de sol, lembrando o provérbio popular ‘de sol e chuva, casamento de viúva’. No trajeto confirmei no termômetro a marca de 40,1°C de sufocante calor das 14h. Me recolhi em um abrigo, achei mais prudente e talvez por isso que poucas pessoas estavam na rua; alguns feirantes aproveitavam as poucas sombras nas cercanias do mercado para estender as lonas e iniciar a montagem das barracas.

 

Encontrei o Historiador Sérvio Túlio que me ciceroneou em um passeio gastronômico pelos bares e restaurantes da cidade. Com a chegada da noite as ruas se enchem de sons e ficam repletas anunciando o início do fim de semana, com a Praça da Matriz florida de jovens de todas as idades, registrando em fotografias o painel monumento “Eu amo Serra Branca”, bem iluminado, atração obrigatória da cidade.

 

Ocaso no Sítio Várzea Nova, no Bento, em Serra Branca-PB

 

Na manhã seguinte parto do sítio para cidade e testemunho, como numa visão medieval, o ‘zum-zum-zum’ de comerciantes, feirantes e condutores de caminhonetas com cargas de todos os tipos. Bodes, galinhas e guinés vivos podiam ser vistos a todo tempo. Estaciono o carro ao lado da Matriz de Nossa Senhora da Conceição e começo o meu passeio. Defronte ao mercado vejo venda de lanches de todos os tipos e enquanto em uma banca rolava um jogo de bozó (apostado, claro!), ao seu lado um carrinho de inox reluzente me chamou atenção, era um churrasco grego. Uma peça de carne em fatias assando em um eixo na vertical; com uma faca bem afiada a carne mais superficial era retirada e colhida com uma pazinha, o destino era um pão francês com vinagrete e, para acompanhar, um refresco gelado de laranja ou maracujá. A iguaria do Antônio (dono do carrinho) e Célio (seu ajudante) era bem requisitada, eles pareciam não dar conta dos pedidos. Paciente, esperei o meu por uns 10 minutos enquanto passava meu olhar em volta e observava a movimentação. Antônio morava em São Paulo e voltou há alguns anos com dois carrinhos de churrasco grego; o Célio é goiano e após trabalhar nas obras de pavimentação da PB 200 – de Serra Branca a Coxixola – se encantou com a cidade. Na verdade, o churrasco grego é denominação abrasileirada para o kebab, de origem turca, tradicionalmente preparado com carne ovina.

 

Serra do Jatobá por Vera Leão, artista Serrabranquense

 

A carne, predominantemente magra, era composta de contrafilé, alcatra, e outros cortes, todos bovinos. O tempero é muito gostoso e a peça de carne (que as vezes são vendidas 2 por dia) é suficiente para compor 120 pães. Saciado, adentrei ao mercado, vi roupas, eletrônicos, carnes… numa cena dantesca, vi uma cabeça de porco pendurada olhar para mim e sorrir. Segui por uma rua lateral e vi toda sorte de frutas e verduras, só de melancia era um caminhão. Caminhei, senti os cheiros, sabores e as cores desta feira intensa. Uma rua inteira era abrigada do sol por lonas afixadas nos postes. Escuto o tilintar metálico: “Se não estou enganado, isso é um triângulo”, chegando mais perto, a batida grave denunciava o zabumba, foi quando ao dobrar uma esquina, na sequência de barracas, me deparo com dezenas de potes de barro formando um tapete marrom na rua, cerâmica bem decorada, utilitária, bem cozida. Ao seu lado uma tenda e o forró ‘comendo no centro’, sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro animavam os feirantes. Clientes, vendedores, ninguém passava por ali sem ser balançado pelo ritmo defronte ao Bar de Zé Rato (que deixou de existir). Ao longe vi muitas mesas ocupadas, não por bebidas, mas por pessoas comendo; perto das 10h, deveria ser o intervalo de almoço dos feirantes. Dos músicos, o pandeirista esbanjava talento e pompa, em seu pescoço pelo menos 5 cordões grossos de prata com pingentes que saltavam aos olhos entre os botões abertos da camisa, os dedos inclinados no pandeiro exibiam muitos anéis, par de óculos azul cintilante e chapéu de aba curta compunha a personagem… preciso dizer que nos toques ele fazia mungangas à moda de Jackson do Pandeiro? Preciso não…

 

Feira de Serra Branca, aos sábados.

 

Eram 10h, o passeio findava e próximo destino a Escola Estadual Vasconcelos Brandão, o IHGSB me esperava.

 

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