Há sinais, já vejo a cidade, condomínios e algumas casas enfeitando-se com lampadinhas ou luzes vindas do Oriente, para anunciar o renascimento de Jesus Cristo, e à procura desses enfeites, alguns nordestinos vão bater em Gramado, saem até do país, em busca de luminosidades maiores do que as existentes por aqui. Desejaríamos que essas intenções os preparassem para amar. Isso é o que deveria ser o Natal como nascimento de quem mais doutrinou e pregou o amor. Já é Advento, vem por aí o tempo de amar, um amor maior não confundido com a paixão, porque , na maioria das vezes, paixão não é amor. O amor é puro e essencialmente divino, quando age, tendo como objeto o outro, desinteressadamente alguém, no meio de muitos e até um desconhecido, ou que seja destinado a todos, sem discriminação. Como a atitude de Dersu Uzala, no filme de Akira Kurosawa, que consertou e preparou a cabana abandonada e perdida no meio da floresta, para algum próximo que viesse encontrá-la e se hospedar nela. Esse seria o definido próximo de que fala o Evangelho.
Às vezes, a gente ignora que amar tem o seu tempo, em reais circunstâncias, que se torna um verbo sem indicativo e subjuntivo, sem sujeito, sem perceber até que “eu” não seja pronome. Aliás, para amar, cada um tem o seu jeito ou um como fazer para se encaixar ou se engajar nos outros pronomes. Em todos os sentidos, o próprio amor é muito forte e poderoso. Nada é mais grandioso e universal do que ele, não é só verbo, é linguagem perfeita e significativa, em extensão e compreensão dos termos de todos os idiomas, que, segundo Paulo de Tarso, se falados, sem amor pouco significam.
O amor é muito poderoso e generoso, dá a cada um seu jeito de amar. Profunda imagem do morto que ama, no Agonia na Tumba, do romancista e teatrólogo Tarcísio Pereira, relembrando a vida de fora, e ouvindo debaixo da terra, sepultado vivo na escuridão da cova, “bichos e pessoas (…); tudo misturado e fora do caixão”. Enfim, nessa boa literatura, o morto ama porque está vivo. Mas, sem incertezas, acho que os mortos amam de modo mais perfeito. Contudo, a Natureza ensina que não nascem as árvores, os frutos e as sementes, se a terra não amasse a água, e a água, a terra. Para outras formas, não paro de ler Sull’Amore, de Plutarco, comprado em momentos do amor, no sebo, debaixo de uma frondosa árvore, no Trastevere, à margem do Tibre. O amor alimenta deliciosa memória.
Os equívocos do amor surgem sempre das circunstâncias, onde e quando, a força da paixão ultrapassa os limites da consciente censura. Contudo, o amor que é amor não se equivoca, não se trata aqui do falado amor biológico, mesmo quando das ações por ele movidas, haja consequências convidativas à frustração. Mas quem ama o verdadeiro amor não se frustra, lembra-se apenas do amor, que o moveu ao que amou, é disso que se tem saudade, cuja palavra é uma das mais belas da língua portuguesa, difícil de ser traduzida a um outro idioma.
Quando acontece a saudade do que se ama, o interior da nossa subjetividade resgata tudo de precioso que estamos perdendo, sobretudo se há razões que tentem diminuir a sensibilidade de amar. Guimarães Rosa, nos seus manuscritos, é metafisicamente pontual: “Saudade é ser depois de ter”, sobretudo se se trata do amor…
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