É verdade que ninguém morre duas vezes, como também só nasce uma; outra também é a de que não se pode morrer sem estar vivo. Se isso ocorresse, contradizer-se-ia o sentido lógico dos verbos viver e morrer, ou dos substantivos vida e morte, que se definem nos seus limites. Mas, tal assunto não poupa palavras, desconsidera circunstâncias, quando falado ou cantado pela poesia; a liberdade, que concede a poiesis aos poetas, vai dos seus cantos, além das montanhas, ao absurdo, versejam do possível ao impossível. Quando assim, o essencial é dar voz à poesia; poder falar ou poder cantar.
O primo Aloísio fez conhecer o poeta Jerônimo que, na plantação coletiva de macaxeira, na Una de São José, tanto roçava, como cantava versos de improviso, foi assim que se criou. Enquanto algum outro ousava enfrentá-lo com tiradas jocosas, ele soltava poesia casta, irônica, bela, que se superiorizava, arrancando dos outros rurícolas gargalhadas de satisfação. Conhecia-se tal prodígio de pequeno, era dito que teria nascido para a poesia. Depois de certas idas à Fazenda do Tio, perguntei sobre a ausência de Jerônimo, e informaram que ele andava cantando poesias, às vezes folhetos nas feiras da redondeza, tendo já sido recebido para se apresentar, em João Pessoa, na Rádio Tabajara, onde teria virado notícia.
Tempos passaram, quando o poeta, de perfeita saúde, de repente, como os seus repentes, foi arrebatado por um AVC, três letrinhas, às vezes linguagem dos seus improvisos, que teria vitimado outros poetas. Os repentistas são genialidades, cujas cabeças são cheias de muitos neurônios, quem sabe mais do que nos crânios normais… E talvez sejam por isso tão afetados por maldita isquemia, não irrigando seus espaçosos cérebros. Reforçando sobre as grandes cabeças, meu amigo Ariano Suassuna foi vítima de um desses derrames…
Mais modesto, Jerônimo, apenas com sua viola, voltou a habitar seu casebre de rurícola, na Una de São José, naquele recôndito distrito rural de Pedras de Fogo, perto de Pilar, minha querida cidade natal. Sem a fala, com a língua meio enrolada, ela, que era tão versátil em dizer emboladas. Agora, ao contrário da definição de poeta de Pinto de Monteiro, não tirava de onde não tinha e nem botava onde não cabia… Ah, se as línguas dos poetas tivessem, como a poesia, permanentemente vida! Elas jamais teriam morte, com o poeta em vida. Mas, metaforicamente, a poesia, falada ou cantada, procura ser ouvida.
Tudo isso vive e morre, e coexiste numa intrínseca relação existencial. Como eram os motes dados ao brejeiro poeta repentista. O assunto vinha de longe, trazido pelo provocador em tom de ameaça, desconhecido para o poeta, mas logo ele o inseria no contexto, dominava como se domasse um bom e brabo cavalo, para trotar de ladeira abaixo, indo e vindo; descendo ou subindo. Na boquinha da noite, na calçada da capelinha de São José, erigida pela gratidão agradecendo a chuva, nos momentos de uma rude seca, Celestino, também plantador de macaxeira, metido a intelectual e quase ateu, imprecava, em voz alta à justiça divina: “Muito mais mereço eu ficar sem fala, tão viciado em cheirar tabaco ralado”.
Tal malcriada reza não foi ouvida, continuou Celestino blasfemando na roda de rapé, sob olhares desconfiados, e o poeta calado, apenas pensando o que Milton Marques escreveu: “O repente Deus me deu, para eu ser cantador; no repente não fui servo, no repente fui senhor. Foi-se-me a voz, já não canto, nem prazeres, nem a dor”.
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