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Blog do Vavá da Luz

À Bondade, nenhuma Gratidão (

 

Mais por bondade do que obrigação de promessa, Cassiana, filha do generoso casal Ademar e Ana Maria, determinou-se a servir todos os dias, na hora do Angelus, um enorme caldeirão de sopa aos necessitados de Guarabira. Era, na região, famosa caridade. Ao cair da tarde, na Praça da Luz, começava a distribuição de pratos a maltrapilhos e a bem vestidos, todos com direito a binar a gostosa sopa. O coxo Zequinha era quem chegava primeiro, vestido de um surrado paletó sem botões, manchado por outros caldos passados.  Justificava sua pressa: – “Gosto de sopa, mas só tomo quente”. Um dos dias, agrediu quem quis proverbiar seu jeito de andar: – “Quem é coxo parte cedo”. Confidenciou-me Cassiana Lara: – “Difícil não era preparar a sopa, mas organizar a fila”, que se fazia e se desfazia a cada momento, com gritos: “sou eu, cheguei primeiro”. Os vizinhos incomodaram-se com o barulho e aborreceram-se com os restos de comida, cuspidos em suas calçadas por aqueles que não gostavam de verdura.

O incompreensível eram os protestos dos beneficiados. O próprio Zequinha sempre reclamava que a sopa estava fria. O de barba suja, apelidado de “baiano”, exigia que na sopa houvesse mais carne; um hipertenso tomava, mas sempre dizendo que estava salgada; já os que levavam, para a bodega da esquina, a sopa como tira-gosto, contradiziam: “tá sem sal, acaba com o prazer da bebida”; os últimos da fila pediam mais caldo: “essa sopa só tem macarrão e batata”, e enfim, diziam: “quem já se viu sopa sem pão, é como feijão sem arroz”.

Aquele ato de caridade era sem limite, sem demora, quem chegasse era atendido. Até o dia em que os pedintes assíduos impuseram regras de não aceitar “desconhecidos”, sobretudo estrangeiros ou venezuelanos; excluíram os mendigos sem presença regular, que andavam pedindo também pelas cidades do brejo. Cumprindo essa norma, numa tarde de sexta-feira, expulsaram da fila um pobre coitado a murros e pontapés.

Cassiana, constrangida com as brigas, viu-se sem condições de dominar aquelas arruaças e até ameaças de canivetes e cutelos. E, também, cansou daquela rotineira protestação. Ora, tratava-se de uma caridade, desprendimento vicentino sem pretensão de retorno aqui na terra. Além disso, Jesus Cristo já advertira seus discípulos: dos dez leprosos curados, apenas um voltou para agradecer. Pois é, daqueles famintos saciados, nenhum. A doação era tida por eles como obrigação.  À caridosa jovem, só reclamações, nenhum sorriso de agradecimento. Sua boa ação está na conta das bondades sem gratidão.

Como é difícil fazer o bem sem algum retorno, zombando da bondade sem gratidão alguma. Não existe no mundo maior mágoa do que a ingratidão da parte daquele a quem se faz o bem… Por isso, encontre, na própria ação de bondade, a satisfação de ter feito o Bem. Iguala-se assim à compensação da ação moral, pelos ditames da Ética: O valor do cumprimento do dever moral está no prazer da sua realização. Não espere agradecimento de quem possivelmente seja um ingrato, mesmo quando se diz, desde a Idade Média, ser a ingratidão o maior pecado que ofende a Deus…

Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 29/04/2026

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