Depois de a estrela ter poisado,
depois de os anjos se terem recolhido,
depois de os pastores terem voltado para junto dos rebanhos,
houve alguém que permaneceu no estábulo escuro.
José contemplou o bebé adormecido numa manjedoira de palha e murmurou:
— É meu e não o é. Como vou substituir o seu Pai verdadeiro? Como pode um homem simples como eu criar o filho de Deus? Nem sequer comecei bem. Não encontrei um lugar decente para ele nascer, uma cama condigna para ele dormir. Ele, que nos tem embalado a todos desde o dealbar dos tempos.
Que cantigas de embalar devo cantar a alguém que ensinou os anjos a dançar e povoou o céu de pássaros? Como posso ensinar-lhe palavras e letras, a ele que criou o alfabeto e sussurrou sonhos a milhões de ouvidos em milhares de línguas diferentes? Só de pensar nisso, fico sem fala.
E como posso ensinar-lhe as Escrituras? Será como ler-lhe um livro que ele próprio escreveu. Que histórias posso contar-lhe, se ele escreveu a História do Mundo?
E que anedotas? Conhece-as todas. Não foi ele que inventou o hipopótamo hilariante e fez os rios gorgolejar de riso? Não foi ele que desenhou a primeira face, o primeiro piscar de olhos, o primeiro sorriso? Digam-me como hei de proteger uma criança cujo braço brandiu o primeiro relâmpago, que desferiu o primeiro trovão, que veste o sol como armadura e usa as estrelas como elmo?
E, no entanto, o meu coração treme por ti, por seres tão pequenino.
Vou dar-lhe pão e peixe, vai apanhar sol e vestir roupas como as minhas.
Que jogos faremos, menino, tu e eu? Como posso atrever-me a brincar com alguém que prendeu o oceano com um alfinete de lua? E como hei de maravilhar-te como o meu pai me maravilhava a mim? Foste tu que fizeste a galinha nascer do ovo e o carvalho da bolota. Como posso dar-te um teto, sabendo que foste tu que deste ao mundo uma cúpula de vidro, que cobriste o céu de nuvens, e coseste a neve com fios de prata derretida?
Qual será o meu legado para ti, meu pequenino, além de um mundo cheio de Amor? Nem a cor dos meus olhos e nem sequer o meu nome.
E, no entanto, estive a pensar, filho…
As minhas mãos são fortes, Deus sabe-o. E todos precisamos de uma ajuda de vez em quando. Será essa a minha oferta, meu filho. Serei a mão que te ajudará.
Geraldine McCaughrean
Father and Son
London, Hodder Children’s Books, 2006
(Tradução e adaptação