Traíra sem espinha
A traíra tem duas reputações: a de comer os outros peixes e a de dificultar a vida de quem a come. A primeira vem da natureza; a segunda, das espinhas. Não se lhe pode negar certa coerência.
Diz-se que é petisco de pobre. Pequena, chamam-lhe suvela; acompanhando um angu, no Nordeste, tem fama de sustança. O pobre, que nem sempre pode escolher o peixe, aprendeu a discutir com as espinhas.
Dessa discussão nasceram métodos, escolas e segredos. Há os cortes miúdos de ambos os lados, chamados tico-tico, tanto mais acreditados quanto mais próximos e profundos. Há quem retire as espinhas à mão, com uma paciência que, aplicada a outros negócios, talvez rendesse fortuna. E há os que sabem, mas não contam. São os mais respeitados.
Daí os restaurantes anunciarem traíra sem espinha. O freguês lê, acredita e senta-se. A esperança também abre o apetite.
Catatau não acreditava.
Marceneiro de ofício, habituado a conhecer a resistência das coisas, ouvia aquelas histórias nas pescarias a que o levavam os amigos, gente dada às alegrias de beira de açude. Entre um copo e outro, aparecia sempre alguém que conhecia o modo definitivo de vencer as espinhas. O modo variava; a certeza era a mesma.
Catatau escutava. A madeira ensinara-lhe que certas dificuldades se resolvem com ferramenta; outras, mudando a pergunta.
Por muito tempo, sustentou que a traíra sem espinhas era impossível. O próprio nome do peixe lhe parecia argumento bastante. Depois, sem anunciar a conversão, começou a dizer que possuía uma receita.
— E qual é?
— Não passo pra ninguém.
Não acrescentava nada. Deixava que os outros trabalhassem na fama do segredo, serviço que lhe faziam gratuitamente e com grande aplicação.
A notícia chegou a Luizinho do Pagode, que apresentava, na famosa Rádio Tabajara, um programa de música temperado com curiosidades de boteco. Luizinho convidou-o a ensinar a receita ao vivo.
Catatau aceitou.
Aqui o leitor poderá estranhar que um homem tão cioso de seu segredo resolvesse entregá-lo, de uma vez, a toda a audiência. Também os amigos estranharam. Catatau, porém, não era obrigado a explicar a receita antes de ensinar a receita.
Marcaram para uma sexta-feira.
Durante uma semana, Luizinho anunciou a iguaria. Entre um pagode e outro, vinha a promessa: Catatau ensinaria a fazer traíra sem espinha. Não era conversa de pescador; havia dia, hora e microfone.
Na sexta-feira, o marceneiro chegou cedo, acompanhado de alguns amigos. Se levava consigo a tranquilidade dos grandes cozinheiros ou a dos grandes maliciosos, não sei dizer. Os amigos ainda não tinham elementos para julgar.
Começou pela compra do peixe. Explicou a limpeza, os cortes, a quantidade de água. Vieram os tomates, as cebolas, o coentro, o sal a gosto e os demais temperos. Nada faltava, nem mesmo a solenidade.
Luizinho interrompia de quando em quando:
— Devagar, Catatau, pro pessoal anotar.
Catatau obedecia. Dava a cada ingrediente o tempo necessário para entrar na panela e no caderno dos ouvintes.
Chegou ao cozimento:
— Dois minutos.
Fez uma pausa.
— Nem um, nem três. Dois.
A precisão tranquilizou a audiência. Um homem que distinguia assim os minutos não estaria brincando com as espinhas.
Os amigos ouviam, Luizinho acompanhava e, nas cozinhas alcançadas pela Tabajara, é possível que alguma mão já tivesse procurado uma panela. Faltava apenas o segredo: o pulo do gato. Tudo até ali era preparo; a revelação vinha agora.
Catatau aproximou-se do microfone:
— Tire tudo da panela, deixe esfriar um pouco, ponha no liquidificador e bata por três minutos. Pronto!
Houve na cabine um silêncio breve, mas completo.
Os amigos olharam para Catatau. Luizinho também. O inventor da receita conservou a serenidade de quem entregara exatamente o que prometera.
Luizinho foi o primeiro a recuperar a fala:
— Mas, Catatau, meu amigo, assim é phooddaa! Com PH de Pharmacia, dois o’s de Hollywood, dois d’s de Toddy e dois a’s de Saara!
E encerrou o programa.
Catatau está hoje aos noventa anos, vivinho da silva, dedicado ao trabalho mais fino e artesanal com a madeira. Pode ainda contar a história a quem duvide.
Colombo pôs o ovo em pé; Alexandre cortou o nó. Catatau tinha um liquidificador.