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Blog do Vavá da Luz

Santa Clara (Irapuan Sobral)

Santa Clara

Cultura é sinestesia: a forma de sentir os modos do mundo.

Durante algum tempo, moramos num galinheiro adaptado a quarto, na pensão do saudoso Pedro Freire, de Piancó, à Rua General Osório, na capital da Paraíba. Éramos quatro. A adaptação não nos dera asas, mas havia uma biblioteca pública nas proximidades, o que, para certos destinos, pode servir.

Nossos recursos alcançavam as refeições. O resto era estudo. A vida parecia mais provável naquela forma: um livro aberto sobre a mesa e o futuro obrigado a esperar que terminássemos a página.

Os vizinhos — dois, às vezes três rapazes — tinham outra doutrina. Eram dados à boemia da cidade, possuíam uma televisão e recebiam muitas visitas. Eu assistia ao Sítio do Pica-Pau Amarelo e à novela Corrida do Ouro. Eles, suponho, assistiam à própria ascensão.

Era o ano de 1977. Assim o guardo.

Conterrâneos do dono da pensão, exibiam “status”, palavra que então dispensava maiores explicações. Bastava pronunciá-la para subir alguns degraus na escada social; verificar a existência da escada seria uma indelicadeza.

Eu contemplava aquela vizinhança como uma imagem irônica da igualdade. A parede nos separava pouco; a expectativa, muito.

Numa certa semana, os rapazes ficaram tensos. Precisavam ir a Recife alugar smokings para a inauguração de uma boate na capital. Parecia que algum amigo conseguira os ingressos, limitadíssimos, graças ao “prestígio” de que gozava junto ao proprietário.

Não sei se o prestígio produzia o status ou se o status obtinha o prestígio. Eles provavelmente também não sabiam, mas, diziam, já tinham os ingressos.

A boate seria mais espetacular que a Hippopotamus, do Rio, e até que a Studio 54, de Nova Iorque. A notícia atravessara essas cidades e chegara ao nosso galinheiro sem perder uma cascata.

Era a “Era Disco”.

Falava-se, em petit comité, da planta do estabelecimento: piso de vidro, teto retrátil, bebidas e comidas à vontade, fumaça, gelo seco e gente da alta sociedade girando pelo salão. O teto abria-se para o céu; os convites, para poucos.

Não posso afirmar que os rapazes foram à inauguração. Posso afirmar que desapareceram, como de costume, naquela noite e que passaram alguns dias com aparência de ressaca. A memória, quando honesta, deve conhecer os limites de sua competência.

Depois esquecemos o episódio e voltamos à vizinhança de galinheiros.

A boate ficou sendo um ponto turístico da memória, em um dos caminhos de quem vai à praia. Há quem passe pelo lugar; há quem ainda possa vê-la.

Anos depois, um amigo entregou-me algumas folhas. Já dividíamos fóruns, tribunais, bares e conversas. Creio que estávamos num posto de combustível, lugar pouco adequado à entrega de um manuscrito, embora a literatura tenha aprendido a não escolher suas portas.

— Quando tiver tempo, leia isso aí.

Tratava-o de MBA: Meu Bom Amigo. A sigla vinha de uma brincadeira com um antigo cliente dele, dono de um hotel em cujo restaurante comíamos uma deliciosa feijoada nos almoços de abertura do final de semana.

Na cultura das aves, eu já deixara os galináceos.

Devo registrar, em benefício da minha alma e contra a perfeição desta homenagem, que guardávamos reservas recíprocas. Em alguns processos, representáramos partes opostas. Nossos interesses colidiam, e recorríamos às falácias retóricas que a profissão, depois de convenientemente vestidas, admite como argumentos.

A amizade sobrevivia. Não exigia que acreditássemos um no outro, assim nas audiências, como na vida.

Eu lia seus textos nos jornais e nas listas em que os distribuía. Também me dava de plateia às suas conversas dominantes. Sua vida era excessivamente pública, com alternâncias ondulares entre o público e o publicado. Às vezes, um episódio parecia ter acontecido já à espera da coluna.

Li as folhas, ri muito e voltei ao galinheiro.

Havia ali uma época que eu conhecera pela parede do quarto vizinho. Agora alguém me abria a porta. Procurei-o e comecei a falar com a gravidade de um aprendiz de crítico, condição especialmente favorável à gravidade.

Disse-lhe que aqueles episódios ultrapassavam o interesse dos protagonistas e figurantes ainda vivos. Se tão poucas páginas continham tantas histórias, uma observação criteriosa haveria de encontrar outras.

— Você é algo entre Nelson Motta e Jorginho Guinle. Pode misturar os dois sendo você mesmo. Há um livro, em vários tomos, nessas histórias.

Ele pouco se ligou.

Contei-lhe, então, a inauguração da boate como eu a conhecera: os rapazes, os smokings de Recife, o prestígio, o teto que se abria. Disse que me imaginara lá quando fui às inaugurações da SkyLab e da Sugar Baby, em Jatobá, dois anos depois. Certos acontecimentos nos recebem primeiro pela imaginação; a presença chega atrasada.

Ele reservava pouca audição em público. Preferia a fala. Era muito solar e tinha uma vida digna de brilho. Acho, contudo, que ficou pensando no que eu disse. Não voltamos ao assunto. Os textos, esses, continuei a encontrá-los em suas publicações.

Marcus Pires personificou uma cultura e uma época na Paraíba. Mas uma cultura só é cultura quando perde a paternidade — e o DNA. Passa de boca em boca, recebe acréscimos, sofre contestações e acaba pertencendo até a quem não esteve lá.

Cultura é convivência, confronto, contemporização.

Entre o Grivo, do Rosa, e o Grilo, do Ariano, Marcus foi os dois, com o glamour debochado de um lorde Henry, de Oscar Wilde.

Não costumava marcar os relacionamentos pelo “status”. Confundia as hierarquias no grau de amigos. Quem procurasse em sua convivência a ordem dos convites poderia acabar sentado à mesa errada — e muito bem recebido.

Quando a doença chegou, encontrou um homem pouco disposto a lhe ceder a narrativa. Marcus soltou um libelo nos jornais, continuou jornaleiro até quando pôde e retirou-se à sua maneira, tornando-se um mistério público.

Mesmo que os protagonistas culturais sejam revéis de suas ações, ele só perdeu as rédeas na extrema-unção.

Eu já saía de seu velório quando o senhor desta foto se apresentou exigindo meu reconhecimento. Errei uns dois nomes. A passagem dos anos costuma fazer isso: conserva o amigo e altera o rosto pelo qual devemos encontrá-lo.

Atendi uma ligação. A amiga que estava ao telefone ouviu antes de mim:

— Irapuanzinho, eu sou Saint Clair!

Disse que era uma velha amiga dele e recomendou que eu o tratasse como Santa Clara.

Espantei-me com aquele encontro dentro de outro encontro. Abracei o amigo de mais de trinta anos e passei-lhe o telefone. Por alguns minutos, fiquei de fora da conversa que minha própria ligação trouxera.

Depois falamos de Marcus.

Saint Clair contou que o conhecera em 1975, em Areia, após uma encenação de O Auto da Compadecida, na qual fizera João Grilo. Encontraram-se no Hotel Bruxaxá, recém-construído. Marcus encantou-se com ele e o convidou para ser produtor de uma boate que construiria na capital.

Saint Clair respondeu que não entendia muito do assunto.

O convite foi mantido. Acrescentou-se outro: sair dali com a comitiva e morar na casa de Marcus enquanto as obras fossem tocadas. Para espanto geral, assim se fez.

Morou na mansão que foi, por muito tempo, o hotel de luxo da Paraíba e terminou produtor da Boate Passárgada.

Eu estava, enfim, diante de alguém que vira por dentro o que me chegara através de uma parede. Esperava confirmações. Recebi duas negativas.

A primeira: não houve exigência de smoking na inauguração. Também não se lembrava dos meus vizinhos.

A segunda: naquela noite em que foi deixar a modelo no hotel, a aventura terminara à porta. O resto ficara por conta da demora proposital — tempo suficiente para os narradores.

Não dei crédito às revelações. Eu carregara as outras versões por tempo demais; já haviam adquirido os direitos da residência.

Os smokings, sobretudo, eram difíceis de devolver. Tinham saído de Recife, atravessado a ansiedade dos rapazes e permanecido quase cinquenta anos na minha memória. Agora um homem que estivera lá afirmava que não eram necessários. Talvez a festa começasse justamente nessa diferença entre o que se exigia e o que se desejava parecer.

Quanto à outra negativa, pertencia ao mesmo evangelho.

O evangelho segundo Marcus Pires era contado no modo lendário: segundo a versão mais oportuna e agradável. Seus ouvintes também colaboravam. Uma boa história encontra sempre quem a ajude a acontecer.

Saí do velório com Saint Clair restituído ao meu convívio e com a boate um pouco menos certa. Marcus, ausente, ainda nos dava assunto.

— MBA, tenho certeza de que você não sabe que morreu. É próprio dos salvos. Porque viverão na eternidade, em alma — e talvez em outras criaturas —, uma continuação da vida que receberam para protagonizar.

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