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Blog do Vavá da Luz

OPINIÃO “A Senhora que veio das águas” com o desembargador José Ricardo Porto

A Senhora que veio das águas

José Ricardo Porto

Há histórias que começam com grandes acontecimentos. Outras começam silenciosamente, quase escondidas dos olhos do mundo. A história de Nossa Senhora Aparecida começou assim: nas águas de um rio, nas redes de três pescadores e na simplicidade da fé.

Era o ano de 1717. No Rio Paraíba do Sul, na região onde hoje se encontra a cidade de Aparecida, no Estado de São Paulo, três pescadores — Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso — lançavam suas redes. A pesca estava difícil. Os peixes não apareciam.

Até que, próximo ao Porto Itaguaçu, uma das redes trouxe algo inesperado: o corpo de uma pequena imagem, sem a cabeça.

Lançaram novamente a rede.

Desta vez, veio a cabeça.

As duas partes se encaixavam. Era uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição.

A cor escura da pequena imagem também tem sua história. Ela foi feita de barro cozido e originalmente possuía pintura e cores. Com o passar do tempo, porém, adquiriu a tonalidade escura pela permanência nas águas e no lodo do Rio Paraíba do Sul e, posteriormente, pela fumaça e pela fuligem das velas, candeeiros e lampiões acesos diante dela durante tantos anos de devoção. Assim chegou até nós a imagem que milhões de brasileiros reconhecem imediatamente: Nossa Senhora Aparecida, pequena, de cor escura e profundamente ligada à fé de seu povo.

Os pescadores continuaram seu trabalho. E é nesse ponto que a história encontra a fé: segundo a tradição que atravessou os séculos, depois do encontro da imagem, as redes, até então quase vazias, voltaram carregadas de peixes.

Para aqueles homens simples, alguma coisa extraordinária havia acontecido.

A imagem encontrada nas águas passou a ser guardada e venerada. Primeiro no ambiente familiar, depois em um pequeno oratório. Pessoas começaram a chegar para rezar. A notícia se espalhou. A devoção cresceu.

Não nasceu de uma grande cerimônia. Não começou em palácios. Começou entre pescadores.

Talvez esteja justamente aí uma das partes mais bonitas dessa história.

A pequena imagem retirada do rio foi sendo chamada pelo povo de Nossa Senhora da Conceição “Aparecida” — aquela que apareceu. E aquilo que começou discretamente às margens do Paraíba do Sul transformou-se, ao longo das gerações, numa das maiores manifestações religiosas do Brasil.

Vieram os primeiros locais de oração, a capela, a igreja e, muitos anos depois, a Basílica. Em 1904, a imagem foi solenemente coroada. Em 1930, Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Padroeira principal do Brasil. Décadas depois, a grandiosa Basílica tornou-se o coração visível dessa devoção, recebendo peregrinos vindos de todos os cantos do País.

Mas talvez a verdadeira grandeza de Aparecida não possa ser medida pelo tamanho de um templo.

Porque a verdadeira fé talvez não esteja apenas nos templos construídos pelas mãos dos homens. O seu templo mais profundo está dentro de nós: nos nossos sentimentos, na nossa consciência, na esperança que carregamos e na maneira silenciosa como cada um conversa com Deus.

Nossa Senhora Aparecida é também isso.

É a fé que não precisa de ruído para existir.

Está na mãe que pede pelo filho. No filho que reza pela mãe. No enfermo que procura consolo. Na família que agradece. Naquele que chega carregando uma dor que ninguém conhece. E também naquele que não pede nada: simplesmente agradece.

Cada pessoa chega a Deus pelo caminho mais íntimo de sua consciência e de sua fé. Não cabe transformar esse sentimento em disputa. A fé verdadeira habita uma região da alma onde o barulho do mundo deveria entrar muito pouco.

Nossa Senhora Aparecida atravessou mais de três séculos porque sua história foi transmitida de geração em geração. Avós ensinaram aos filhos. Pais ensinaram aos netos. Milhões aprenderam a pronunciar seu nome nos momentos de esperança, de sofrimento, de gratidão e de amor.

Uma pequena imagem.

Três pescadores.

Duas redes que retiraram das águas primeiro o corpo e depois a cabeça.

E uma devoção que atravessou séculos.

Para quem tem fé, talvez não seja necessário explicar muito mais.

É suficiente olhar para aquela pequena imagem e compreender que, muitas vezes, Deus escolhe a simplicidade para tocar o coração dos homens.

Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do Brasil, rogai por nós.

Que cubra nossas famílias com seu manto, conforte os que sofrem, fortaleça os que perderam a esperança e ilumine nossos caminhos.

E que Deus, acima de todas as nossas diferenças, nos conceda aquilo de que jamais teremos demais:

fé para continuar, sabedoria para compreender e amor para viver.

Amém.

Desembargador do Tribunal de Justiça da Paraíba.

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