A poesia existe antes de mim e do poeta, parece vir de vozes descidas dos céus. Ao estudá-la no Belo dos filósofos, ela anda à busca de sentimentos, da flor da sensibilidade humana, da alma, que a traduzem em música, pinturas, esculturas, imagens, artes cênicas, enfim, em palavras e versos. É a poéisis bruxuleante, desejando intensamente sair à luz das sombras da caverna platônica para a beleza da arte. Porém, como independência existencial, a poesia existe antes e depois do poeta. Por isso, poetizo: Mesmo que o poeta morra, a poesia continuará a existir.
Espontânea, mas nunca o é gratuitamente, ela exige afeição. Tomando uma analogia aristotélica-tomista a respeito da conceituação, a poesia se manifesta ao intelecto como se preenchesse um recipiente, um vaso miraculoso como aqueles da transformação de água em vinho. É um milagre que mais me sugestiona, no Evangelho Segundo João (2, 1 – 11). Maria, mãe de Jesus, sentiu o problema da amiga, dona da festa, e avisou-o ao Filho. Mas Ele fazendo gesto de pouco interesse sobre o que escutara, ela confiou n’Ele e Jesus pediu aos serventes que enchessem grandes potes de pedra com água até a borda. A água foi levada ao mestre de cerimônia que, quando a provou, expressou que não nunca tinha bebido vinho de tal surpreendente qualidade. Logo ele, que economizava a bebida que restava, agradeceu ao noivo por ter guardado tão excelente surpresa para o final da festa. Assim tratamos, às vezes, os desígnios dos céus… E naquela festa, faltou vinho, mas não poesia.
Nenhuma palavra fora da forma, da capacidade e da subjetividade de cada um, assim a poesia se manifesta. É como esta crônica que está sendo apreendida conforme o recipiente de cada leitor. Nesse sentido, aparecem críticos, alguns escritores, que exigem ser nossos recipientes iguais aos seus, em conceituações e até como condição de sermos poetas. Como essa exigência é uma aberração epistemológica, afirmo: todos podemos ser poetas, relativamente, todos somos poetas, sem ferir a “poiésis”, que navega nos mares do belo e voa nos ares da liberdade. Basta a poesia vir ao nosso encontro, penetrar nosso ser, atingir nossos sentimentos e, em nós, encontrar palavras para ser anunciada.
Quando adolescente, sempre gostei do repente, tanto visto e ouvido nas feiras de mangaio, às terças-feiras em Itabaiana. Já muito depois, vi em Sousa o repentista Zé Paulino, simples, com essência de povo, disputando versos consigo mesmo. Era o cordel vestindo linho, sem desprezar o casaco de couro, riscado pelos gravetos da mata seca, paramento ritualístico da melodia plangente e melancólica do canto do aboio, que também entoa a poesia. São gênios, na máxima de Pinto do Monteiro: Poeta é aquele que tira de onde não tem e bota onde não cabe…
A poesia se veste de Musa, furtiva como as belas mulheres, como uma deusa, cobrindo a face, num carro com velozes cavalos. Mostra-se, aos poucos, sensual, em forma de mote, suscitando inspiração, criatividade, até se tornar assunto. Se dissimulada ou arredia como a mulher que se nega, a poesia também proporciona sofrimentos, escondendo-se do poeta. O poeta olha a pedra e, diferentemente de Drummond, vê apenas pedra, em qualquer lugar do caminho. Esta fuga ou contágio tresmalhado cativa o poeta e o compromete ainda mais. Assim como o ferro é calor ao participar do fogo, o escritor, não importa em que intensidade, torna-se poeta ao participar da poesia.
DESTAQUE: Como independência existencial, a poesia existe antes e depois do poeta.