Dinheiro anda desaparecendo
Teodoro, garçom de um restaurante, avisou três vezes que o prato estaria saindo. Nessas ocasiões, trata-se do gerúndio mais longo do verbo sair, é um saindo sem fim… Antes de me acalmar pela quarta vez, resolveu me agradar jogando conversa fora, e dentre essas, a de que, certa vez, recebera gorjeta alta de um cliente que achava que o pedido estava demorando. Mesmo aborrecido, deu gratificação, ao contrário dos costumeiros valores, numa nota de papel, dobrada, mas que trazia um insulto, escrito rimado pela afobação: “Quem pegar nesse dinheiro enfie no seu traseiro”. Teodoro demonstrou não gostar da proposta inconveniente. Contudo, constrangido, guardou-a no bolso traseiro, sem nem pensar no troco… Naquele recinto, garçons e clientes continuavam transparecer pressa e semelhantes dissabores, uns já de saída, sem reclamação, pagando a conta, apressados, com a aproximação do celular, sem alguma cédula em espécie.
Já vi notas de 2, de 10, e até de 20, com coisas estranhas escritas, mas nunca de 50 ou de 100, com frases pornográficas, desenhos ou recados obscenos. Nas contradições dos nossos costumes, encontram-se também, nas cédulas, bilhete de amor, conta, lista de feira, telefone, endereço, encomenda ou anotações de coisas esquecíveis, até estraga-se dinheiro escondido nas partes íntimas e mais suadas do corpo, no sapato sem meia ou no surrado boné. Notas dobradas como um pequeno embrulho, amarrotadas, não resistindo aos esfregões, como se fosse uma bola de papel a ser jogada numa caixa de recolher dinheiro. Algumas restauradas com durex, por tiras coladas com goma arábica ou até com fita isolante. Quanto a recado indecente, meu avô Joca me educava: “Canalhice de gente mucufa. Não existe dinheiro de país civilizado riscado; sempre novo, limpinho de fazer gosto”. Nossa moeda não merece costumeiro mal trato. Sem se recorrer ao câmbio, é recebida em países irmãos latino-americanos, como na Argentina, mantendo-se distante da vulgarização inflacionária portenha. Talvez por isso, li que o comércio internacional tende vender recebendo nosso Real.
Contra isso, os pais deveriam dar bom exemplo aos filhos ao respeitar o dinheiro, como símbolo do digno honesto trabalho. As escolas corroborariam esse argumento, admoestando o valor e o zelo pela nossa moeda. Pensei num remédio mais rápido: quem riscar dinheiro estaria retirando-o de circulação. Ninguém o receberia com tal estrago, somente o Banco Central, para reposição. Ora, quem invalidaria seu próprio dinheiro? Desde então, decidi nunca mais aceitar dinheiro riscado ou remendado, recusando-me receber cédula estragada. Ora, eles mesmos não a receberiam.
Ao pesquisar sobre essas minhas queixas, consolou-me encontrar que a matéria está disciplinada pelo art. 10 da Lei nº 8.697/93: “Toda cédula que contiver marcas, rabiscos, símbolos, desenhos ou quaisquer caracteres a ela estranhos perderá o poder liberatório e o curso legal, valendo apenas para ser depositada ou trocada em estabelecimento bancário, que a recolherá ao Banco Central do Brasil para destruição”. Se a Lei existe, devemos cumpri-la.
Mas, ontem, ao querer pagar 2 quilos de pinha com uma nota de R$ 50,00, a dona da barraca me apresentou o QR Code do seu Pix, com a quantia exata do pagamento: “Senhor, dinheiro anda desaparecendo, não tenho dinheiro para troco”. Ainda concluí: Com o Pix, troco está se acabando, também dinheiro para perda, assalto ou batedor de carteira. Restando notas de cem, muito usadas na prática da corrupção ou sonegação, guardadas em caixas de sapato, sacolas ou malas, escondidas em guarda-roupa, baú ou debaixo da cama… Porque corrupto detesta registros bancários, centralizados pelo Registrato, do sistema gratuito do Banco Central do Brasil.
DESTAQUE: Desde então, decidi nunca mais aceitar dinheiro riscado ou remendado, recusando-me receber cédula estragada