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Blog do Vavá da Luz

Poema mandamental (Irapuan Sobral)

Poema mandamental

Procuração

“Orlando Meira Tejo, brasileiro

Casado, campinense, advogado,

Com residência e domiciliado,

Em Brasília, no bairro do Cruzeiro,

Por meio de instrumento verdadeiro

Legalmente em cartório registrado,

Conforme determina a Lei do Estado,

Nomeia Elizabeth Marinheiro,

Brasileira, casada, militante,

Escritora, Imortal, sua bastante,

E fiel procuradora, a quem confia

Plenos poderes para execução

Dos atos inerentes à inscrição

Do outorgante aos umbrais da Academia.”

Fui da primeira turma que fez o exame de ordem na Paraíba.

Ainda na escola de Direito, criamos um grupo para contestar a exigência, que estava sendo implantada por Vital do Rêgo, então presidente da OAB-PB.

Algumas pessoas conseguiram, por ações judiciais, a inscrição. Depois, houve resistência também no serviço judiciário. As tentativas de vencer no conselho local da OAB foram malogradas, política e habilmente, por Vital. Lembro que, numa sessão desse conselho, que examinava um recurso de uma colega que pretendia a inscrição, com os arroubos próprios da juventude, fiz umas cenas — e Vital ignorou solenemente minha presença.

Nosso grupo anti-exame foi convidado para participar de um júri simulado, em um encontro acadêmico na cidade de Sousa. Eu fui como acusador do exame. Na defesa atuaria o colega Lincoln Leitão.

Quando chegamos ao fórum, que funcionaria no prédio da prefeitura, sob a direção do professor Jarismar Gonçalves, juiz de direito que começara a carreira em Jatobá, descobri que Vital ficaria na banca, auxiliando Lincoln. Acusei também a desigualdade, mas topei a parada.

Aberta a sessão e iniciado o chamado das pessoas que comporiam o corpo de jurados, Vital pediu a palavra e foi rejeitando, um a um, os convocados, alegando que eram estudantes e estariam impedidos. Eu tentava defender as indicações, mas ele não aceitava.

Em determinado momento, ele disse que eu tinha um problema nosológico.

Os colegas haviam me instruído a ter um dicionário sobre a mesa para — interrompendo a sessão — consultar eventuais palavras que Vital trouxesse do repertório “belle époque”. Corri ao dicionário e vi a palavra, mesmo lembrando de outra da mesma origem: nosocômio.

Fui à réplica:

— Ótimo! Sou um suposto louco social, mas Vossa Excelência, “Esquálidus Únicus, a Mácula”, não fica em situação melhor: é um caso psiquiátrico.

E completei:

— Se os estudantes estão impedidos porque poderão fazer o exame, os que não são estudantes também estão, porque não precisam fazê-lo.

Vital pegou a mão de Lincoln e disse que não participaria mais da sessão. O júri foi abortado.

À noite, em algum restaurante numa praça da cidade, nós, os estudantes, terminamos por protagonizar umas cenas contra o exame. A juventude imagina distribuir mundos que lhe pesam na mente.

Acabei tendo que fazer o exame, após tentativas frustradas de inscrição em Pernambuco e no Rio Grande do Norte. Parece-me, sem muita certeza, que Vital havia feito contato com outras seccionais para evitar a inscrição de estudantes oriundos da Paraíba.

Fiz os exames e gostei. Fui sendo aprovado nas etapas.

Na prova oral de Direito Penal, lá no Colégio Pio X, o examinador escolhido foi o professor José Loureiro. Quando entrou na sala, anunciado por bigode e uma fleuma monárquica, todos me olharam como se eu fosse o responsável pela indicação daquele examinador. Pensavam: veio para reprovar Irapuan.

Sisudo, pediu silêncio e começou a chamada. Lá no fundo, eu conversava com alguns colegas para disfarçar o temor.

Alguém disse:

— Irapuan, ele é de Campina. Comece elogiando a cidade. Eles têm um forte apelo telúrico.

Eu já privava da amizade de Orlando Tejo, que conhecera no Ponto de Cem Réis. Orlando foi o mais completo ser humano que conheci; o paraibano por excelência — e um gênio.

Eu havia decorado grande parte do seu livro mais famoso, Zé Limeira, o poeta do absurdo, e sabia curiosidades sobre ele que pouca gente sabia — ou sabe.

Recitei para os colegas uma procuração que Orlando redigira para Elizabeth Marinheiro representá-lo na inscrição da Academia Campinense de Letras.

Quando terminei, a turma gritou. Loureiro quis saber o motivo da algazarra.

— Irapuan acaba de recitar um poema belíssimo de Orlando Tejo — que é uma procuração.

Ele, então, quebrou a ordem:

— Que venha o poeta.

Eu fui.

Contei a história da peça. Ele ouviu com paciência de monge e curiosidade de boêmio. Pediu que eu recitasse. Recitei.

Depois, veio o exame.

— Como o senhor quer fazer? Eu escolho ou o senhor sorteia?

Lembrei de João Guimarães Rosa, na prova do Itamaraty, quando o examinador lhe perguntou o que sabia de literatura francesa e ele respondeu:

— Tudo!

Eu, ao contrário, fui direto:

— Só estudei revisão criminal. Não sei outra coisa.

Ele “sorteou” justamente esse ponto. Não sei se o acaso fez a escolha ou se Loureiro escolheu o acaso. De todo modo, bem diferente do que temíamos.

Respondi com tranquilidade. Na quinta pergunta, até respondi antes de ele terminar. Ele ponderou, fez um ajuste hipotético — e, ao final, escreveu no caderno: 10,0.

Saí, redigi o poema e lhe entreguei. Nunca mais o vi.

Mais tarde, soube que aquele disfarce “belle époque” escondia uma figura humana rica de aventuras.

Na saída, encontrei Ofélia Gondim e Vital.

Como de hábito, fui sarcástico:

— Por essa prova, posso lhes garantir que a minha inscrição está certa. Serei advogado.

Riram.

Dias depois, com a visita do presidente José Sarney à Paraíba, Vital fez uma cena no caminho do aeroporto e acabou preso pela Polícia Federal.

Eu estava na Assembleia e fui convidado por Pedro Adelson a ir, junto com Eslu Eloy, ao serviço judiciário federal e subscrever um habeas corpus em favor de Vital.

Não sei se a ordem de soltura veio de alguma impetração ou do ministro da Justiça. Sei que Vital foi solto e deu à cena já começada a dimensão desejada: convocou imediatamente a imprensa, o conselho e a política toda para uma entrevista coletiva. Eu estava lá e fui apresentado por Pedro Adelson como subscritor do HC. Vital me deu um longo abraço e me reconheceu como gente, já me recomendando a participar de sua campanha para Constituinte.

Curioso é que, em uma das provas do exame, redigi um habeas corpus, premonitoriamente, em favor de “Esquálidus Únicus, a Mácula”. A peça já vinha com a ironia pronta, como se o destino tivesse senso de humor.

O teatro tinha um objetivo.

Na entrega das nossas carteiras de advogados, Vital fez uma solenidade no auditório do Hotel Tambaú, com todo o Conselho Federal da OAB.

Ao chamar o meu nome, fez um elogio tão demorado que, ouvindo aquilo tudo, tropecei numa cadeira e quase caí.

Mal sabia ele que havíamos combinado que um de nós falaria — sem elogios a ele. Acho que João Fernandes foi o escolhido.

Depois, viria a consagração maior: Vital foi eleito para a Assembleia Constituinte e, como era de seu feitio, destacou-se na elaboração da Constituição. Era homem de cena — e de texto: inteligência raríssima.

Em Brasília, já advogado, quando dizia que era paraibano, não era raro que alguém me remetesse a Vital do Rêgo.

O poema da procuração ganhou o mundo.

Passei a recitá-lo por onde andava, como quem carrega um documento — e uma travessura — na memória.

Certa feita, em casa, recebi uma ligação de Baeta Neves, que, sem muita explicação, passou o telefone para alguém interessado em ouvir o poema.

Quando a voz entrou na linha, reconheci de imediato: era José Sarney. Recitei. Do outro lado, ouviu com aquela atenção que não interrompe, mas pesa. Quando terminei, houve um silêncio breve, como se o poema tivesse cumprido sua função de ofício e de arte ao mesmo tempo.

Dias depois, fui deixar uma cópia no escritório. Documento entregue.

Só agora, quarenta anos depois, percebo uma dessas ironias que a memória demora a revelar: no júri simulado, “Esquálidus Únicus, a Mácula” nascera como um ataque a Vital; numa prova do exame que ele tanto defendera, transformei o personagem em paciente de um habeas corpus; pouco depois, aprovado no mesmo exame, subscrevi um habeas corpus verdadeiro em favor do próprio Vital.

O que aos vinte e poucos anos parecia ironia, quarenta anos depois parece enredo. Talvez o acaso já tivesse escrito a crônica. Eu apenas demorei a lê-la.

Quanto à procuração de Orlando, como todo mandato, já não me pertencia mais à memória.

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