Eu tinha 13 anos de idade quando recebi a maior lição de oratória da minha vida.
Era uma noite fria, durante um comício numa pequena cidade. Diante de mim, havia uma multidão. Movido pela coragem ou talvez pela inquietação própria da juventude, pedi ao meu pai para usar a palavra.
Eu perguntei: “O que digo?”
Sem discursos preparados, sem fórmulas e sem recomendações complicadas, ele me deu uma orientação que atravessaria toda a minha existência:
“Olhe para a frente e diga a verdade.”
Naquele momento, aos 13 anos, eu ainda não compreendia inteiramente a grandeza daquelas palavras. Somente mais tarde percebi que meu pai havia me ensinado muito mais do que falar em público. Ele havia me ensinado uma maneira de caminhar pela vida.
Olhar para a frente é não se curvar diante do medo. Dizer a verdade é não precisar se esconder de ninguém.
Quando falamos com verdade, podemos sustentar nossas palavras, encarar os olhos das pessoas e seguir adiante com a consciência tranquila. A verdade nos permite contemplar o horizonte, mirar o longe e traçar o caminho que vai dar no sol.
Foi amparado por essa lição que segui meus passos e construí meus dias como gestor, professor, estudioso e, acima de tudo, como alguém que procura viver com propósito.
Com o tempo, aprendi também que não basta dizer a verdade aos outros. É preciso olhar para a frente e dizer a verdade a nós mesmos. Reconhecer quem somos, compreender nossos limites, assumir nossas escolhas e jamais abandonar aquilo em que acreditamos.
Foi essa verdade que me tornou mais forte, mais corajoso, mais digno e, sobretudo, mais feliz em minha jornada.
É sustentado por ela que hoje consigo olhar nos olhos de quem tentou me ferir, sabotar meus caminhos ou me golpear pelas costas. Olho para tudo isso e sigo em paz. Por vezes, até sorrio. Não porque as dores não tenham existido, mas porque nenhuma delas foi capaz de me afastar do meu propósito.
Quem age pelas sombras permanece prisioneiro delas. Quem caminha na verdade segue firme, fortalecido pela própria consciência.
Por isso, repito aos meus alunos a lição que recebi naquela noite fria:
Olhem para a frente e digam a verdade.
Não devemos temer nada nem ninguém quando nossa palavra nasce de uma consciência limpa e de um coração honesto. É com a verdade que vencemos. É assim que o bem supera o mal, não apenas nos grandes acontecimentos, mas nas pequenas escolhas de cada dia.
Ao recordar aquela noite, uma palavra resume tudo: gratidão.
Gratidão ao meu pai, que, quando eu tinha apenas 13 anos, me ofereceu a única lição de oratória de que realmente precisei durante toda a vida.
Olhar para a frente.
Dizer a verdade.
E continuar caminhando.
De um dia de domingo
Carlos Marques Dunga Júnior
23/08/2026