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Blog do Vavá da Luz

A Odisseia brasileira (Irapuan Sobral)

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“Vejo entre a cerração teu vulto baço

Que torna.”

 

— Fernando Pessoa, A Última Nau

Ao deixar Troia, Ulisses diz aos seus homens:

— Sigam o sol poente.

Logo Ulisses.

O homem que levaria dez anos para encontrar o caminho de casa oferece-se como bússola aos companheiros. No Brasil, não causaria estranheza: aqui, os mais perdidos costumam conduzir a viagem. Seguimos o sol poente como se caminhássemos para o amanhecer. Confundimos o Ocidente com o ocaso e chamamos de futuro tudo aquilo que já está terminando.

Mas, no Brasil, a frase guarda outro nome.

O nosso Ulysses também seguiu o sol poente. Desapareceu no mar, sem deixar o corpo, náufrago do céu no horizonte ocidental. Desde então, permanece entre a história e a esperança, como Dom Sebastião, desaparecido no extremo ocidental da África e condenado pela imaginação portuguesa a regressar numa manhã de nevoeiro.

Ulisses voltou a Ítaca. Ulysses não voltou ao Brasil.

Talvez por isso o tenhamos transformado numa imagem sebastiânica. Esperamos que regresse do mar, atravesse a névoa em seu cavalo branco, expulse os pretendentes e restabeleça a ordem da casa.

Se houvesse um Ulysses a ressuscitar, seria ótimo. Mas não há.

Há apenas sua Penélope: a Constituição de 1988, apresentada por ele ao país como a Constituição Cidadã.

Se Ulysses regressasse, talvez não fosse reconhecido pelos partidos que ajudou a formar, pelos poderes que ajudou a constituir nem pelos homens que pronunciam seu nome nas solenidades. Seria reconhecido apenas pela Constituição.

Penélope reconheceria Ulisses. A Constituição reconheceria Ulysses.

Em Ítaca, enquanto Ulisses não regressava, os pretendentes consumiam os rebanhos, bebiam o vinho e disputavam a cama de Penélope. Não apresentavam proposta alguma para a defesa do reino contra os povos do mar. Não pensavam nas muralhas, nos navios nem na sobrevivência da cidade. Queriam apenas Penélope: a bela nudez do poder.

Nada mais natural no Brasil deste ano. Enquanto os povos do mar rondam a costa, os pretendentes medem o colchão da corrupção sistêmica e institucional.

A Constituição é a nossa Penélope. Tece garantias durante o dia para vê-las desfeitas durante a noite. Cercada pelos pretendentes que juraram protegê-la, é violentada diariamente dentro da própria casa. Todos dizem defendê-la; cada qual deseja possuí-la. Já não querem apenas ocupar o leito de Ulysses: transformaram o leito em trono.

A Guerra de Troia também representa a passagem da força para a política. Enquanto Aquiles encarna a violência visível, Ulisses inaugura o domínio da astúcia. Aquiles vence homens; Ulisses vence sistemas. A força do primeiro termina diante das muralhas. A inteligência do segundo atravessa-as.

A política nasceria dessa substituição da força pela esperteza. Não necessariamente para eliminar a violência, mas para adiá-la, escondê-la ou torná-la oportunista. Em sua forma mais elevada, a inteligência evita o combate. Em sua forma corrompida, apenas convence a vítima a abrir os portões.

Ah, sim: os portões da defesa.

A força de Aquiles morreu diante das muralhas. A astúcia de Ulisses atravessou-as escondida.

Também foi Ulisses quem concebeu o Cavalo de Troia. A máquina de guerra não derrubou muralhas, não venceu exércitos nem arrombou os portões da cidade. Foi recebida como presente e conduzida para dentro pelos próprios troianos.

O cavalo continua vivo. Mudou apenas de matéria.

Hoje, dá nome ao Trojan, programa malicioso vulgarmente chamado de vírus, que se apresenta como legítimo para ser instalado pela própria vítima. Depois de admitido, abre secretamente as portas do sistema. Assim também agem certas ideias: apresentam-se como promessas de justiça, liberdade ou redenção, instalam-se no pensamento nacional e, de dentro dele, sabotam a esperança brasileira.

O Brasil recebeu muitos cavalos. Nós mesmos os conduzimos para dentro das muralhas, cobertos de flores e cercados de aplausos. Depois, quando os soldados saem de seu ventre, culpamos os portões.

No filme, Ulisses adverte Telêmaco:

— Não procure deuses nos homens; você apenas se decepcionará.

O Brasil jamais aprendeu essa lição. Não escolhemos governantes: fabricamos salvadores. Elevamos homens ao altar, atribuímos-lhes poderes redentores e, quando se revelam apenas homens, sentimo-nos traídos pelo deus que nós mesmos inventamos. Derrubamos então a imagem — para começar imediatamente a esculpir outra. É o fora-fora, o abaixo-abaixo.

Talvez esse seja o nosso verdadeiro Cavalo de Troia: a esperança de que um homem venha salvar as instituições que os próprios cidadãos desistiram de defender.

Continuamos esperando Ulysses. Enquanto isso, os pretendentes bebem o vinho, os povos do mar se aproximam e a Constituição, sem conseguir concluir o tecido, já não sabe se aguarda o marido ou o próximo violador.

Ulysses entrou no sol poente e deixou a Constituição esperando à beira-mar.

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