Escrevo estas palavras com o coração apertado. Talvez para quem olha de fora tudo isso pareça apenas uma discussão administrativa, uma questão de documentos, placas ou uma contribuição de R$ 5. Para mim, não é apenas isso. Por trás de cada decisão existe uma história de anos, de trabalho, de dedicação e, principalmente, de amor pela Pedra do Ingá.
Quem acompanha minha trajetória sabe que minha relação com as Itacoatiaras nunca foi apenas profissional. Eu me envolvi com aquele lugar porque acredito na sua importância e porque sempre entendi que preservar a Pedra era manter parte da memória do nosso povo. Por isso, confesso que tudo o que está acontecendo hoje me causa tristeza. Não é fácil dedicar tantos anos a uma causa e, depois, sentir que todo esse esforço pode ser esquecido ou colocado em dúvida.
Assim que chegamos à Pedra do Ingá no início do ano de 2012, após reuniões envolvendo a Prefeitura e o Ministério Público do Meio Ambiente e o Iphan, a realidade do local era muito diferente da que conhecemos hoje.
A Secretaria de Turismo passou a atuar diretamente na Pedra, justamente porque era necessário organizar o espaço e estabelecer regras para a visitação. Naquela época, havia consumo de bebidas alcoólicas, banho, drogas, depredação, sujeira, invasão de animais(Bois, carneiros, que ainda hoje não conseguimos resolver isso totalmente) soltos e outras situações que precisavam ser controladas. E faço questão de deixar claro: as proibições não foram uma decisão pessoal minha. Foram estabelecidas por determinação do Ministério Público do Meio Ambiente. Nós apenas cumprimos aquilo que havia sido determinado.
Foi assim que cumprindo determinação do Ministério Público do Meio Ambiente, proibimos bebidas alcoólicas, proibimos banho e estabelecemos regras para a visitação. Na minha avaliação, aquilo era necessário. A realidade que encontramos era tão complicada que cheguei a classificar o local, naquela época, como um verdadeiro “antro de prostituição”, tamanha era a falta de controle e fiscalização. Eu sabia que estabelecer limites poderia gerar críticas, mas preferi enfrentar as críticas a permitir que um patrimônio como a Pedra do Ingá continuasse sem organização.
O trabalho que poucos viram
Outro capítulo importante dessa história foi a recuperação de um projeto que estava parado e que já havia perdido sua validade. Eu, juntamente com os servidores naquela época Dennis e Marquinho, fomos atrás desse projeto em João Pessoa, onde estava parado. Também contamos com a contribuição da arquiteta Pedrina, que participou da formação e elaboração do projeto e deu sua contribuição técnica para que ele pudesse avançar.
Fomos atrás da documentação, retomamos as tratativas e conseguimos fazer o processo andar novamente. A desapropriação das terras voltou a avançar, as áreas foram desapropriadas e pagas. Foram muitas idas, conversas, documentos e articulações. Muitas vezes, o que aparece para a população como uma obra pronta representa meses ou até anos de trabalho que ninguém vê.
Também conseguimos a revitalização do prédio da Pedra, que estava em situação bastante preocupante. O prédio precisava de intervenção e conseguimos buscar os recursos necessários para sua recuperação. Outra conquista foi a construção da cerca ao redor dos 40 hectares do parque, através de recursos buscados junto ao Governo do Estado.
Quando olho para essas coisas, sinto orgulho. Mas, ao mesmo tempo, sinto tristeza quando percebo que parte desse trabalho parece estar sendo esquecido. Não estou dizendo que tudo foi feito por mim. Muitas pessoas contribuíram. Mas também não aceito que se apague a participação de quem esteve ali diariamente, lutando para que as coisas acontecessem.
Ingá avançou no turismo
Durante esse período, Ingá também avançou muito na área turística. O município entrou no Mapa do Turismo Brasileiro e passou a participar de espaços de articulação regional, como o Fórum do Vale do Turismo.
o ingá e suas itacoatiaras estavam no AR no Mar e na terra como dizia orgulhosamente aquele saudoso gestor
Sempre defendi que Ingá não poderia depender apenas da Pedra. Temos cultura, história, artesanato, gastronomia, paisagens e um povo que pode transformar o turismo em uma importante ferramenta de desenvolvimento.
Por isso, quando vejo tudo o que conseguimos construir, sinto uma mistura de orgulho e tristeza. Orgulho porque sei que houve avanço. Tristeza porque, muitas vezes, quem trabalha nos bastidores só é lembrado quando alguma coisa dá errado.
Os R$ 5 e uma história que precisa ser contada
Quero esclarecer também uma questão que considero fundamental: a contribuição de R$ 5 para a visitação acompanhada por guia.
Durante aproximadamente 12 anos, existiu essa contribuição, que ficavam diretamente com os guias. Foi somente no governo de Jan Lenha que a Secretaria de Turismo passou a receber diretamente esse dinheiro. Antes disso, a dinâmica era diferente.
Quando vejo a questão sendo reduzida simplesmente a “cobrança de cinco reais”. Quem fala apenas do valor não conhece o que existia por trás dele. Por exemplo, assim que o novo prefeito assumiu no ano de 2025, a Pedra do Ingá passou 2 meses sem as devidas portarias, portanto sem nenhum servidor público, e essa taxa ajudou e vinha ajudando a manter diversas deficiências funcionais, como pagamento de vigias, e serviços gerais.
Ministério Público do Meio Ambiente: A mão que afagava!
Durante determinado período, o Ministério Público do Meio Ambiente na pessoa da Dra Cláudia Cabral Cavalcante foi a mão que afagava sendo um grande parceiro da Pedra do Ingá. Recursos provenientes de multas pecuniárias ajudaram, conforme os procedimentos existentes à época, na aquisição de equipamentos e materiais necessários ao funcionamento e conservação do espaço.
Eram comprados materiais de limpeza, água, aparelhos de ar-condicionado, vidraças, peças para o museu, e outros itens. Faz-se necessário lembrar que aquele patrimônio vive em sua maior parte de doações, tanto de particulares, bem como de empresas.
Como a Pedra não possuía CNPJ próprio, muitas dessas operações precisavam ser realizadas dentro da estrutura administrativa disponível, com documentação, recibos e notas fiscais.
Eu vivi esse período e lembro do sentimento que existia naquele momento. Havia parceria. Havia diálogo. Havia disposição para ajudar.
Era a mão que afagava.
Por isso, talvez seja justamente essa mudança que mais me entristeça.
Hoje, o mesmo Ministério Público do Meio Ambiente que um dia esteve ao nosso lado apresenta recomendações que, na minha avaliação, acabam atingindo mecanismos que ajudaram durante anos a manter a Pedra funcionando.
E é daí que nasce a frase que coloquei no início deste texto:
*A mão que afaga é a mesma que apedreja.*
Não digo isso com raiva, digo com tristeza, pois quem viveu tudo isso sabe o quanto é doloroso ver uma relação que um dia foi de parceria chegar a esse ponto.
As placas e a pergunta que ninguém responde
Segundo as recomendações que recebemos, placas de orientação e advertência existentes na Pedra deveriam ser retiradas. Entre elas, estavam orientações relacionadas à entrada sem autorização, e a placa que há aproximadamente 16 anos fazia referência à contribuição de R$ 5 para visitação com guia(que sempre foi apenas para o Museu de História Natural de Ingá e não para visitação da Pedra Itacoatiara).
Sem essas placas de orientação, e sem comandos fortes paulatinamente vai voltando ao que era um verdadeiro “antro de prostituição”.
Quem vai tomar conta da Pedra?
A Prefeitura tem sua posição. A Sudema possui responsabilidades relacionadas ao parque. O Iphan tem papel fundamental na proteção do patrimônio arqueológico. E o Ministério Público do Meio Ambiente exerce sua função fiscalizadora e protetora.
Mas, no final das contas, quem vai administrar e manter a Parque Pedra do Ingá?
Na minha avaliação, o Ministério Público do Meio Ambiente deveria cobrar de quem possui responsabilidade institucional que assuma efetivamente essa responsabilidade. Tenho conhecimento de que já foi nomeado um gestor para o parque. Se existe um gestor e existe remuneração pública, é preciso que essa gestão aconteça na prática.
É isso que me preocupa, não estou preocupado apenas com os R$ 5, estou preocupado com o dia seguinte, pois eu sei o que acontece quando não existe funcionário, eu já vi a Pedra ficar sem ninguém.
A questão dos extratos
Eu enquanto Servidor Público já respondi e cumpri todas as exigências e determinações que me foi pedido via oficio, assinei e já retornei resposta as autoridades competentes que fazem parte dessa causa do Ministério Público do Meio Ambiente.
Outro assunto que me preocupa é a questão dos extratos bancários, que me foi solicitado da empresa Restaurante Casa Grande e Senzala, uma MEI relacionada ao Salão de Artesanato, esse fico a dever, e oriento a quebra do sigilo bancário.
A tristeza maior não é a recomendação
Tenho perdido noites de sono, mas quero deixar claro: não é apenas pela recomendação. O que mais dói é a falta de reconhecimento, é olhar para trás e lembrar de tudo que foi feito e pensar que talvez algumas pessoas não saibam, ou simplesmente não queiram lembrar.
Eu estou na Pedra em sábados, domingos e feriados. Estou em dias de movimento e em dias sem visitantes. Estou quando era fácil e também quando era difícil.
Faço isso porque acredito na Pedra do Ingá, não faço para ganhar aplausos, não faço para receber homenagem, faço porque acredito que aquele patrimônio merece ser protegido.
Não quero que a Pedra dependa de mim
A Pedra do Ingá não é minha.
Não é do prefeito.
Não é do secretário.
Não é de partido político.
Não é de governo.
A Pedra pertence à história da Paraíba e ao patrimônio cultural do Brasil.
E justamente por isso eu não quero que ela dependa eternamente de mim.
Quero que exista uma estrutura pública permanente para cuidar dela.
Quero orçamento.
Quero equipe.
Quero segurança.
Quero limpeza.
Quero manutenção.
Quero planejamento.
Quero preservação.
Quero que alguém assuma definitivamente essa responsabilidade.
Se existe alguma coisa errada no que fizemos, que seja investigada. Se existe alguma conta, que seja prestada. Se existe alguma irregularidade, que seja comprovada.
Mas também quero que aquilo que fizemos de certo seja reconhecido.
Porque ninguém pode apagar anos de trabalho.
A Pedra continua lá
Talvez amanhã eu não esteja mais na Secretaria.
Talvez outro secretário venha.
Talvez outro governo assuma.
Mas a Pedra continuará lá.
As Itacoatiaras continuarão lá.
E a história continuará cobrando de todos nós responsabilidade.
Eu estou fazendo a minha parte.
Muitos fizeram a sua.
Agora espero que aqueles que possuem a responsabilidade institucional façam a deles.
E deixo, mais uma vez, a pergunta que não quer calar:
Quem vai tomar conta da Pedra do Ingá?
Escrevo isso com tristeza, mas também com esperança.
Tristeza pelo que está acontecendo.
Esperança de que, no final, o bom senso prevaleça.
Porque a Pedra é maior do que qualquer governo, qualquer secretário, qualquer instituição e qualquer disputa.
E, apesar de tudo, continuarei defendendo aquilo que considero um dos maiores patrimônios da nossa terra.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Mas espero que, quando se tratar da Pedra do Ingá, prevaleça sempre a mão que afaga.
Grande Vavá da Luz… Ele é o cara que ilumina Ingá