E num é que a danada
da saudade, sem falar chamar
Amiga da lembrança,
Veio a mim sem avisar
Fez meu tempo de menino
Novamente despertar.
No jantar de ontem à noite,
Sem sequer imaginar,
Pedi um prato simples
Só pra fome acalmar
Mas Deus tinha outro encontro
Preparado pra me falar.
Quando o garçon se aproximou
Com a bandeja na mão,
Meu coração se apertou
Na mais funda emoção
Não era só coalhada,
Era viva recordação.
Num prato branco de ágata,
Com estalos a brilhar,
Vi meu tempo
de menino
refletido no olhar
O presente deu permissão
Para o passado arranchar.
Eu calei por um instante,
Nem consegui conversar
Tinha gosto de infância
O que estava a provar
Pois a alma reconhece
O que o tempo quis mostrar.
Vi o velho candeeiro
Iluminando o salão
As paredes desenhando
Sombras pelo oitão
E a família reunida
Numa noite de sertão .
Minha avó fazia a prece,
Meu avô a devoção
Cada prato que se trazia
Era gesto de satisfação
Nunca houve mesa tão farta
como aquela de então
Pais, primos, tios queridos,
Todos juntos a dizer
Cada prosa era um conto
Cada riso um acontecer
A felicidade morava
No simplicidade do ser.
A coalhada adoçada
Com rapadura e ternura,
Tinha cheiro de bonança
E sabor de vida pura
Era doce que adoçava
Alma, homem e criatura.
Na cozinha de minha vó
Tudo tinha um bem-querer
O fogão sempre aceso
Parecia nos benzer
Pois o amor quando aquecido
Faz a vida florescer.
Hoje tudo é diferente,
O tempo tudo mudou
Mas aquele velho prato
Minha alma suscitou
Quem tem raízes profundas
Nunca delas se afastou.
Enquanto eu a degustava,
Veio a chuva a dizer;
chuva santa silenciosa,
fez meus olhos foi correr
Era lágrima regando
Toda a infância em bem querer
revivi naquele instante
Uma grande verdade
Há sabores que conservam
A eterna felicidade
São cheiros preparados
Pelas mãos da saudade.
Não existe restaurante,
Nem banquete de valor,
Que supere a mesa antiga
Enebriada pelo amor
Onde Deus fazia morada
No mais simples servidor.
Hoje guardo essa lembrança
Como quem guarda uma oração
Pois um prato de coalhada
Me abriu recordação
Quem alimenta a memória
fortalece o coração .
Bastou fechar os olhos
Que eu voltei ao meu lugar,
naquela mesa tão grande
Vi Minha avó a me chamar
a Coalhada no prato de ágata
A saudade é meu amar
De um dia de domingo
Carlos Marques Dunga Jr
26/07/2026