
Aos mestres, com carinho.
Há uma hipótese, sensível apenas aos que creem, inspirada nos princípios vaishnavas sobre a originalidade, segundo a qual Deus é o todo que se mantém íntegro em qualquer parte.
É assim que se compreende a antiga afirmação de que há Deus em tudo: nada escapa à manifestação da divindade.
Nessas circunstâncias, o tempo deixa de ser uma sucessão de passado, presente e futuro. Torna-se um presente contínuo, como um eterno gerúndio da existência.
Quando Onaldo me avisou de que seus pais, Onélia e Queiroga, estavam no shopping desfrutando de um sábado merecido, eu ainda bebia as primeiras cervejas no bar. Mas precisava tanto vê-los, que não poderia impedir aquele encontro. Fui.
Nas últimas vezes em que nos encontramos, brincávamos com as lembranças e pintávamos o passado com as cores vivas do instante.
Conheci-os na Escola de Direito da Paraíba. Meu instinto imprevisível chamou a atenção do ilustre professor de Direito Civil, radicalmente dedicado à disciplina. Leoninos, indomáveis, acabamos por nos complementar.
Queiroga sempre registrou o cotidiano como quem escreve contos. Nenhuma imagem lhe parecia indigna de memória. Da infância pelas ruas de Pombal ao estudante em Recife; do jovem juiz em Bonito de Santa Fé à Presidência do Tribunal de Justiça, tudo parecia gravado em filmes invisíveis.
Era como se houvesse um gravador dotado de uma memória infinita.
Lembro-me das conversas na Fazenda Acauã, entre Sousa e Pombal, onde cada parente surgia em sua narrativa como uma estrela de uma constelação sertaneja.
Recordo os dias da Escola de Direito do Recife, os companheiros Deoclécio, Raphael e Plínio, o respeito quase reverencial ao irmão mais velho.
Depois, a posse na primeira comarca, dividindo uma república como nos tempos de estudante.
Mais tarde, o juiz de Catolé do Rocha, surpreendendo até os próprios servidores para impedir o vazamento de mandados.
Vieram a capital, os processos rumorosos, os desafios da magistratura — uma vida pretoriana vivida como algodão entre cristais.
Ao mesmo tempo, o magistrado permanecia aberto ao novo, entre os primeiros a abraçar a informática quando tantos ainda a olhavam com desconfiança.
Onélia, por sua vez, sempre foi uma festa.
Ou, dizendo melhor, nunca houve cena em que participasse sem assumir naturalmente o protagonismo — e montar um palco.
Foi minha professora de Direito Penal, mas sua docência ia muito além da sala de aula. Incentivava pesquisas, seminários e o prazer da descoberta.
Pesquisadora incansável, aprofundava-se com o mesmo entusiasmo tanto nas biografias dos músicos quanto nas minúcias da ciência jurídica.
Em Brasília, eram hóspedes frequentes. Saíamos dos tribunais, das repartições e das solenidades para aquilo que realmente nos divertia: feiras, cafés e longas conversas, já livres das formalidades das togas e dos ternos.
Quando meu filho Ely nasceu, levei-o ao Tribunal poucos dias depois. Ia registrá-lo.
Passei antes no gabinete do desembargador Queiroga, deixei o menino por alguns minutos e fui ao cartório, próximo à entrada do antigo TRE, acompanhado de Jair Pereira.
Ao voltar, encontrei Ely nos braços das servidoras. Já lhe haviam trocado a roupa, e ele era embalado por elas.
Queiroga recebeu-me com uma repreensão bem-humorada:
— Onde você estava?
Expliquei que fora providenciar o registro.
Ele respondeu imediatamente:
— Devia ter me chamado para assinar como testemunha.
Noutra ocasião, já Presidente do TRE, cheguei ao gabinete sem perceber que era o centro de uma aposta silenciosa.
Sobre sua mesa havia um aparelho estranho, cheio de peças móveis.
Ali estávamos Queiroga, Alcides Jansen e eu.
A dúvida era apenas uma: eu mexeria ou não no objeto?
Não resisti.
Em poucos minutos já estava quase desmontando o “bicho”, enquanto os dois riam discretamente da previsibilidade da minha curiosidade.
Fui fazendeiro ao lado dele e do Dr. Segundo Maia. Eles sustentavam a terra ao custo do afeto. Eu tentava resistir, não apenas às despesas, mas, sobretudo, à inclemência da natureza, que ambos pareciam tomar como estímulo. Deixei a função. Eles permaneceram — por si ou pela descendência. São o que Euclides chamou de fortes.
Talvez tenha sido justamente essa relação, construída numa espécie de paternidade adotiva, que me tornou mais relutante em visitá-los nos últimos tempos.
Há afetos cuja grandeza também exige coragem.
Hoje, ambos transcenderam as próprias histórias e vivem cercados pelas imagens que construíram ao longo da existência, colhendo os frutos do paraíso doméstico que semearam.
Em algum ponto desse todo — a que alguns chamam multiverso e a literatura canônica prefere chamar paraíso — eles continuam contando histórias de uma família na qual filhos e netos cuidam, com delicadeza e gratidão, daqueles que um dia lhes ensinaram a viver.
Foi assim que saí daquela visita.
Não com a impressão de ter encontrado dois antigos professores.
Mas com a certeza de haver assistido a mais uma aula.
Aprendi, naquela tarde, que ensinar é uma forma de semear eternidades. Um dia, a lição retorna em silêncio, nas mãos dos filhos, no carinho dos netos, na paz da velhice e, permito-me acrescentar, na amizade.
Talvez essa seja a última disciplina do magistério: aprender que ser cuidado é apenas a continuação de uma vida inteira dedicada a cuidar da formação dos outros.
Devo aquele sábado ao cuidado de Onaldo. Há filhos que também ensinam os amigos a agradecer os pais.
E então compreendi melhor a ideia com que comecei estas linhas.
Se o tempo é um presente contínuo, os mestres jamais pertencem ao passado.
Continuam presentes.
Continuam ensinando.
