A corda
“A corda, gente, a corda.”
A jovem não caiu; foi lançada. Foi lançada sem as amarrações obrigatórias que deveriam ligá-la ao sistema de segurança.
A notícia é trágica. O que a produziu, infelizmente, tornou-se comum na rotina oficial. Um acidente provocado pela ausência daquilo que deveria impedir a queda. Mas talvez o comum da notícia esconda algo maior.
Há muito tempo o Brasil vem cultivando uma estranha confiança no improviso. Como se a realidade pudesse ser convencida por discursos, decretos, intenções ou narrativas. Como se a existência dispensasse amarras objetivas.
Uma ponte. Um salto. Um procedimento. Uma conferência. Uma assinatura. Uma responsabilidade. Bastava uma delas cumprir a sua função. Não cumpriu. O desastre tornou-se inevitável.
Às vezes parece que os honestos se recolheram, enquanto a esperteza passou a desfilar como virtude. A esperteza ganhou ares de mérito e a honestidade tornou-se quase um constrangimento.
Olho para o episódio e me pergunto quantas cordas invisíveis já foram retiradas da vida nacional. A corda da responsabilidade pessoal. A corda da verdade dos números. A corda da autoridade moral. A corda da fiscalização efetiva. A corda do mérito. A corda da confiança pública. A corda da lei.
Todas substituídas, pouco a pouco, por improvisações sucessivas.
O país oficial parece acreditar que a realidade pode ser administrada como um expediente burocrático. Quando surge um problema, cria-se uma comissão. Quando surge uma falha, redige-se uma nota. Quando surge um escândalo, procura-se um culpado. Quando surge uma tragédia, promete-se um protocolo. Mas a realidade continua lá, esperando a próxima distração.
Nenhuma sociedade cai de uma só vez. Primeiro desaparecem as referências e os projetos de longo prazo voltados às futuras gerações, substituídos pela lógica das próximas eleições. Depois desaparecem as responsabilidades. Em seguida desaparecem os controles. Por fim, permanece apenas a ilusão de que alguém está segurando a corda.
O mais assustador na morte daquela jovem não é a altura. É a imagem. Ela acreditava estar presa. Todos acreditavam. O salto estava preparado. As pessoas estavam reunidas. As ordens eram dadas. Os procedimentos pareciam estabelecidos. Ela foi lançada!
Mas, no instante decisivo, não havia nada ligando a pessoa ao sistema que deveria protegê-la.
Talvez seja essa a metáfora mais inquietante do Brasil contemporâneo.
Continuamos avançando sobre a ponte. Continuamos ouvindo as instruções. Continuamos acreditando que alguém verificou os encaixes. Continuamos supondo que existe uma estrutura de segurança. Mas ninguém parece disposto a perguntar se a corda ainda está presa do outro lado.
A corda que faltou no salto talvez reapareça no processo. Não para sustentar a vítima, mas para sustentar o caso por anos a fio, entre laudos, recursos, incidentes e debates cada vez mais sofisticados sobre culpa, dolo ou dolo eventual. Quando finalmente se descobrir um nome jurídico, talvez já não reste tempo à punição, pelo menos por pedagogia.
No Brasil, a morte costuma ser um fato; a responsabilidade, uma hipótese em instrução permanente. E a prescrição, não raro, a certidão de que o Estado também perdeu o salto.
O país real continua caminhando. O problema é que o país oficial, há muito tempo, vem retirando as cordas que sustentam a travessia. E os abismos não se tornam perigosos quando aparecem. Tornam-se perigosos quando passamos a caminhar sobre eles convencidos de que estamos seguros.
É preciso acordar.
Despertar dessa letargia que nos faz acreditar que alguém já verificou os encaixes, que alguém já conferiu os procedimentos, que alguém já está segurando a corda.
Porque, na hora decisiva, não é a confiança que impede a queda.
É a corda.