Doutora Iris, a oportunidade me consente um gesto do que já lhe é comum: dizer a todas e todos o que é ser conterrânea — aos seus olhos.
Assim, eu lhe digo: É, antes de tudo, um nome: um lugar para ir.
É prudente dizer que, no seu batismo no Pará das Icamiabas, este instante já se antecipara em duas sílabas, faltando apenas o ir – e o chegar. Cá está você.
Aqui, talvez o português tenha ouvido “praia boa” e guardado Paraíba — como quem escuta o mundo com pressa e entende em poesia – para navegar.
Talvez venha da voz tabajara, ou de um eco antigo, desses que uma Potira sussurraria entre matas e rios. Como, aliás, fazem os marajoaras de sua linhagem paterna.
Nesta terra os rios são tratados no feminino. E não é por acaso — é porque geram. É deles que o mar se alimenta.
Ser paraibana é acordar o sol — como faz o chantecler sem pedir licença à aurora, recebendo manhãs tecidas a fios de lua.
Porque aqui a lua não apenas brilha: ela vem no mar beber estrelas para iluminar o céu.
Na Paraíba, rio é feminino porque é água em revolta, desobediente às margens, até se derramar, dar a mar – no céu das águas.
Para vir à Paraíba, basta seguir a lua cheia de amar.
Ser paraibana é caminhar, aqui próximo, entre as ruas que margeiam o Sanhauá, com a impressão de não se estar só — porque nunca se está.
Você, que estudou em Portugal, há de lembrar de Inês de Castro — rainha depois de morta, presença que o tempo não ousou negar.
E pode recordar também uma outra sua conterrânea de passagem na infância, a potiguar Nísia Floresta, que levou o Brasil consigo pelo mundo.
Pois saiba: elas também estão aqui.
Aqui, elas passam, em silêncio, como plantadas em um jardim eterno, ou aos gritos feito a Matinta Pereira:
Branca Dias,
Anayde Beiriz,
Margarida
Violeta — todas banhadas pelas águas antigas da Paraíba.
E se me permite trazer a minha ribeira do Piranhas: trago-lhe o exemplo de Severina Cambista, da Várzea, em Jatobá.
Ser paraibana é isso: não apagar a memória; é, diferentemente, dar-lhe cadeira na sala.
E é, sobretudo, provocar o paraíso à mudança. Porque aqui não se aceita o mundo como ele é — a gente cutuca Deus com vara curta, porque vive no mesmo céu – em camaradagem.
Antes do título, a senhora já havia entendido isso. Porque aqui não se mora. Aqui se vive.
Consinta-me uma franqueza de que esta terra gosta: não se tome neste assento como adotada.
Porque esta cidadania pode até se expressar na lei — mas não nasce dela. Ela é telúrica, vem do chão, da poeira, do sal, da memória.
Mas, acima de tudo, é ontológica: não se concede — é-se. É-se paraibana.
Por isso, sua filha, Ana Catarina — se quiser — pode chamar Elba Ramalho, Cátia de França, Marines, ou Lucy… de tias. Aqui se toca Zabé da Loka.
Porque essa terra não registra — ela incorpora. E incorpora em família: por você, por Ana Catarina, por dona Ana Maria, por Manuel – e pela lembrança de Ivan.
Se em toda a criação há uma centelha divina, a Paraíba é uma dessas fagulhas mais teimosas — uma parcela de Deus deixada sobre a terra.
Não é fruto do acaso que tenha se apresentado ao olhar do colonizador em agosto. Há nisso uma espécie de sina leonina: sol alto, vocação de permanência.
E, ao fim, uma ressalva: Que os tantos outros lugares por onde você passou, ilustrando a paisagem, não se sintam desterrados. Leis de cidadania não têm cláusula de revogação. Elas apenas acumulam pertencimentos — como quem junta rios até fazer mar. Juntando o Amazonas e o Paraíba sob o som do carimbó e do xaxado, servindo tacacá à farofa.
Por isso, doutora Iris, não receba este título como quem chega. Receba como quem apenas ouviu, em voz alta, aquilo que a vida já vinha dizendo em silêncio.
Porque, no âmago — e é aí que mora a verdade — não é a senhora que passa a ser da Paraíba. É a Paraíba que já era sua e hoje apenas se declara, creditada ao seu convívio:
És Paraíba!!!
Aguyjevete Tupã