À medida que os indivíduos se concentram em determinado interesse coletivo, faz-se necessária a formação de filas. Num contra-exemplo, os animais, para desfrutar da caça, não fazem fila; agridem-se mutuamente até prevalecer o mais forte. No caso dos humanos, pela ordem de chegada, espontaneamente ou não se organiza a fila ou, caso contrário, é organizada com a ajuda de um guarda, diante de uma grande afluência de pessoas para o atendimento de serviços ou recebimento de algum benefício. Não há fila para fazer o Bem… Após essa providência, espontânea ou dirigida, a empresa ou repartição pública prestadora do serviço deve ser a primeira responsável pelo bom funcionamento da fila, para que ela seja cômoda e respeitada.
Chegar antes do outro constitui um direito de ser atendido primeiro. Essa é uma regra simples, clara e insofismável. Ninguém deve usurpar ou transferir esse direito para um terceiro, acolhidas as exceções para idosos, grávidas, pessoas com criança de colo, portador de deficiência física ou cirurgiado. Porém, numa sociedade, onde é costume não se respeitarem os direitos, há os que se acham mais do que senhores da sua vez. Depois de serem atendidos, chamam familiares e “amigos”, que estão fora da fila, para ocuparem a sua vaga, dando indevidamente o que mais não lhes pertence. Ceder o lugar só é aceitável, quando a pessoa não o utiliza e o permuta com aquele a quem deseja agraciar. Sucede até de pessoas colocarem na fila objetos, como guarda-chuva, cesta, bolsa, celular, carrinho de supermercado ou um tamborete, “guardando a vez”, igualando essas coisas às pessoas que esperam ser atendidas.
A figura comum e ignominiosa do fura-fila é sempre detestável, porém vai avançando de mansinho, cinicamente, escorregadio como se ninguém percebesse; usa do subterfúgio de bater papo mais adiante com algum conhecido e ali se insere como se tivesse chegado antes, forçando ser ali o seu lugar. Esse comportamento é usual em lançamentos de livro na fila de autógrafo. Quando são vários fura-filas, desalinham a fileira, formam um amontoado de pessoas, para que não se saiba quem é o primeiro, o próximo ou o último. Esse inaceitável abuso acontece costumeiramente nas filas dos guichês, caixas de bancos, repartições públicas e até mesmo nas ruas ou rodovias, durante um engarrafamento, quando um motorista mal-educado passa por qualquer brecha ou pelo acostamento. Em sociedades instruídas, esse desrespeito provoca uma forte reação de todos que estão na fila. Entre nós, todos desaprovam essa atitude, mas não externam o protesto; acomodam-se às conveniências e retroalimentam assim esse mau hábito, como incorporado aos costumes…
O fura-fila é cria das mazelas perniciosas do egoísmo. Sempre quer ter o mundo exclusivamente para seu proveito e benefício. Obviamente, numa fila de condenados à morte, o fura-fila agiria em sentido contrário: disputaria os últimos lugares, cedendo gentilmente a sua vez: “- Pois não, vá primeiro”. São indivíduos que trazem prejuízo ao desejado e bom convívio social. Neles prosperam a ganância e a intenção compulsiva de sempre conseguirem vantagem sobre o outro. Na visão de um cidadão ético, a cara de um fura-fila se assemelha à fisionomia da corrução, tão em uso no país.