Do que vivi ao que ainda pode ser
Senhor Prefeito Leo Bezerra,
Nosso encontro no mercado de Tambaú, na manhã de sábado, não foi circunstancial. Foi uma trama — dessas encruzilhadas que a cidade arma sem avisar.
Como lhe disse, escrevo esta epístola pública movido por uma única autoridade: a memória.
Outro dia, precisei de algumas coisas e fui ao Mercado Central — onde ainda se encontram bons preços e disponibilidade. Fu e vi um velho moribundo — ainda cheio de esperanças nas duas juventudes: a dele e a do senhor.
Guardo muita saudade pulsando pelas cercanias daquela região. Foi ali que fiquei quando cheguei para conhecer o mar, em 1973, em dias de férias. Era o tempo em que os supermercados Kipreço (o Amarelão do Mercado Central) e São João se enfrentavam na avenida Pedro II.
Para o senhor ter uma ideia: com apenas dez anos, perdi-me por aquelas cercanias — porque tudo era aventura. Lembro de me aproximar de um taxista pedindo ajuda para voltar. Ele perguntou onde eu morava. Respondi: na Pensão de Dona Rosália. Ele riu e apontou o lugar. Estávamos quase à frente do portão central.
Noutra ocasião, debaixo de chuva, o Mercado foi meu farol de retorno desde a Praça João Pessoa.
Prefeito, o centro não é um bairro — é a memória em funcionamento.
Escrevo-lhe não como técnico, mas como quem viveu aquele espaço. Como alguém que o viu pulsar — e hoje o vê resistir. Fui pra lá, desde a rua Gal. Osório, para pegar os primeiros ônibus ao campus universitário.
O Mercado Central nunca foi apenas uma feira. Foi encontro, trabalho honesto, voz popular. Foi o cheiro de café misturado à história. Ali, João Pessoa falava consigo mesma.
O senhor assumiu, há pouco, o mandato. Ainda toma pé da situação — como é natural. Mas poucas gestões têm a chance de deixar uma marca que não seja apenas administrativa, e sim civilizatória.
Recuperar a grandeza do Mercado Central — e devolver a nobreza ao centro da cidade — pode ser essa marca. Aliás, a bem da verdade: todos os mercados merecem essa atenção.
A área é imensa. Funciona, mas precariamente. Sobrevive — quando poderia liderar.
A feira deve permanecer — raiz não se arranca. Mas ali pode nascer um grande centro popular moderno, com a organização e os serviços que hoje só os shoppings oferecem — sem perder a alma da feira: espaços comerciais, serviços, escritórios, cinemas populares, estacionamentos amplos.
A localização é estratégica: próxima aos órgãos governamentais, tribunais e repartições. O fluxo já existe. Falta estrutura, projeto e coragem.
O senhor representa uma geração política contemporânea — que já não teme o novo — e que compreende que o poder público não precisa fazer tudo, mas precisa fazer o essencial: conceber, ordenar, garantir e fiscalizar. Por isso, é possível ir além.
O município pode liderar um projeto estruturado: definir a planta, organizar o espaço, estabelecer diretrizes claras — e, a partir daí, conceder à iniciativa privada a execução, a ocupação e a gestão, por um período longo, estável e responsável.
Não se trata de abrir mão do espaço público, mas de dar-lhe vida com inteligência.
Há modelos bem-sucedidos no Brasil e no mundo. O que falta não é referência — é decisão.
O Mercado Central pode ser esse exemplo: um projeto em que o público desenha o futuro e o privado o constrói, sob regras que preservem a alma popular do lugar. Porque o abandono custa caro. Mas a parceria bem feita constrói cidades.
E mais: que haja ali espaços abertos para manifestações culturais populares — música, bares, teatro, literatura, feira de livros, artesanato, praça de alimentação. Um lugar de consumo, sim — mas, sobretudo, de convivência. Porque o povo não precisa apenas consumir. Precisa pertencer.
Não escrevo movido apenas por nostalgia. Sou, admito, um saudosista — mas do futuro. Quero ter orgulho do que ainda pode ser feito. Quero que o passado sirva de raiz, não de âncora.
Não proponho fórmulas técnicas. Proponho ambição histórica. Quem devolve o centro à cidade devolve a cidade a si mesma.
Recupere o Mercado Central — e o centro voltará a pulsar.Porque nenhuma cidade sobrevive quando abandona o próprio coração.
Aproveito para mandar uma imagem que a inteligência artificial fez a partir desta carta que lhe escrevo.
Respeitosamente,
Irapuan Sobral
