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Blog do Vavá da Luz

Meus lápis coloridos (Damião Ramos Cavalcanti)

 

          Senti-me feliz ao receber, pela primeira vez, a caixa de lápis de cor, no Colégio Nossa Senhora da Conceição de Itabaiana.  Mesmo antes de qualquer rabisco, a explosão das cores, como que num arco-íris, foi um fascínio. Aquela caixa quadrada continha um colorido vivo, que, na infância, tinha dificuldade de juntar. Hoje, quase sem surpresas, desenhar, usando essas diferentes cores, é uma das principais atividades da creche, onde os “flávios tavares”  começam  a ensaiar os primeiros traços. Depois, senti outro tipo de emoção: receber os novos livros das séries seguintes.

          Desenhava primeiramente o contorno, depois o preenchia efusivamente com as cores. Cada lápis se tornava um símbolo. O azul era o céu; o marrom, a terra; o amarelo era o sol, o verde, as plantas. No desenho em que o vermelho era sangue, o amarelo era o ouro, que fazia também parte da nossa bandeira. Poeticamente ele se impunha como o sol. À entrada do Sistema Conviver, da educadora Virgínia, vi esses lápis desenhados nos muros da escola, como se fossem uma cerca viva daquele mundo infantil. No interior da escola, para marcar o início das aulas, a criatividade substituiu o sino pela música, ouvida nos versos de “Aquarela” de Toquinho e Vinícius de Moraes: “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo…”
          Mais tarde, as caixas viraram estojo, onde os lápis cresceram, tornaram-se longos como o de grafite comum. Sofisticaram-se em lápis de cera. Foi quando, já no Seminário Arquidiocesano, em João Pessoa, o professor Antonio do Vale desmanchou, de vez, minhas ilusões, dizendo que as cores não existiam. Tudo era branco. A classe inteira, estupefata, começou a passar a unha nas coloridas capas dos cadernos. E as cores estavam ali, tangíveis. Não fugiam dos nossos dedos. Nada adiantou. Diante do nosso silêncio, continuou o professor, com seus argumentos: “as cores do caderno dependem da intensidade do fluxo luminoso e da composição da luz. Esse fenômeno provoca em vocês uma sensação subjetiva e por isso vocês vêem as cores”.  Passou o dever de casa: cortar um papelão ou compensado redondo como um bolo de fôrma; desenhar fatias iguais e pintá-las em cores diferentes; no centro, colocar um prego e girar o disco com velocidade. Feito esse engenho, viu-se a brancura das cores na nossa improvisada “estação ciência”. O professor tinha razão.

          Tinha ouvido falar das cores significando coisas negativas, sobretudo do amarelo. “Boca Mucha” gostava de nos apelidar, nos momentos de ira: “Aquele amarelo me paga!”. Como se não bastasse ser o amarelo palidez ou sinal de enfermidade, designou-se uma doença com o nome de “febre amarela”; “amarelão” como sinônimo de coisas que até desconhecíamos: opilação, ancilostomíase ou uncinariose. Ou “como ele está amarelo” não era boa coisa.

           Já adolescente, senti que as cores se restabeleceram nas tintas e nos pincéis dos grandes pintores.  E, com justiça, o amarelo reassumiu a sua magnitude, expressando ora raios, ora luz, ora o sol. Descobri que o pintor holandês, Vincent van Gogh, enamorou-se da cor amarela e com ela pintou a si mesmo, a sua casa, os campos e toda a natureza. A cor amarela, em todas gradações, manifestando-se também na moda, como vestir a beleza das mulheres. Lembrando-me disso e do amarelo da minha primeira caixa de lápis de cor, desenhei versos intitulados “Sapatos Amarelos”: Teus sapatos amarelos cruzam-me de abraços (…)

          Enfim, de lápis em lápis, de desenho em desenho e de poema em poema, o amarelo tornou-se mais lindo.

 

Damião Ramos Cavalcanti

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