Pular para o conteúdo

Blog do Vavá da Luz

    Ah, se nós pudéssemos voar! (

          Ah, se eu pudesse voar, tirar os dois pés do chão sem pular; sair da terra, afastando-me das coisas rasteiras e, com profundidade, abandonar as coisas terrenas, que apenas enfeitam e adoçam a luxúria. E, com certeza, distanciar-me-ia do que existe aqui embaixo e de coisas que merecem ser tão desprezíveis, como a inveja, o ódio, a ganância e a violência, o que vem se requintando contra a mulher e a criança. A leveza do voo se deduz dos desenhos coloridos pelas crianças.
          Voar sempre foi um sonho da humanidade, daí as invenções e tentativas das asas e espaçonaves, perfeitamente, se não invejar os pássaros ou querer atingir as maiores altitudes e distâncias ou perscrutar outras galáxias. Ficaria satisfeito em admirar lá de cima como são lindas as casas e seus jardins, e as crianças brincando nas suas ruas. Voar sem a ousadia das alturas. Como foi o caso de Ícaro que, mesmo advertido pelo pai Dédalo, não considerou a força do Sol, menosprezando suas possíveis consequências; subiu, subiu, o quanto pôde, até derreter a cera que unia as penas, desfazendo as asas, caindo verticalmente para as profundezas do mar. O desejo sem limite é perigoso…
          Igualmente, foi o ambicioso desejo de Páris pela beleza da grega Helena, cantada na nossa cultura, em Mulher nova, bonita e carinhosa, do poeta Otacílio Batista, conhecida pela voz de Amelinha e Zé Ramalho, que levou à destruição a feliz Troia, acabando a vida e o reino do seu pai. O desejo, como alimentador da paixão, faz esquecer o perigo e suas trágicas consequências, sobretudo não percebendo o esquecimento da sensatez, que chega a levar à loucura aqueles mais sensatos, levando-os ao sofrimento. Não se veja a paixão e o desejo como coisas negativas, mas como forças que nos são fundamentais, que necessitam de equilíbrio. A paixão sem ser contornada é como o fogo, sem direção, atiçado pelo vento, queima até exaurir o próprio fogo, e só se remedia o perigo, valorizando-se a razão acima da paixão.
          Tudo isso não nos convence desprezar o desejo de voar com todos os seus aspectos espirituais de rumo ao sagrado. Também porque, onde houver amarras, a vontade de voar afirma quebrar essas correntes. Khalil Gibran, em sua obra O Profeta, aborda, com frequência, o desejo de voar e a necessidade de liberdade como  essência da vida, da alma e do amor, muitas vezes, usando metáforas de asas, ventos e alturas e sobretudo do voo.
          O “voo” para Gibran representa a transcendência ou o desejo do voo transcendente, o crescimento espiritual, como libertação das amarras terrenas. A ideia de que filhos são flechas, atiradas pelo arco, os pais, destaca-se como uma das suas mais belas e ricas metáforas, que significa desapego do pai e da mãe, não tendo seus filhos como propriedade; já na educação, expressa o crescimento da personalidade dos filhos e, sobretudo, independência sem amarras e a liberdade das flechas voando…
          Mas, no voo, nem tudo são nuvens e céu. Para voar é preciso esperar o devido tempo, aprender com os pássaros que não voam quando chove, troveja ou relampeia. Em Fausto I, de Goethe, eloquente e apreciável é a pergunta de Mefistófeles a Fausto: “Almejas voar e não te sentes livre da vertigem?”

 

DESTAQUE: Tudo isso não nos convence desprezar o desejo de voar com todos os seus aspectos espirituais de rumo ao sagrado.

Damião Ramos Cavalcanti

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *