Quem vai ouvir o seu silêncio?
Há uma cena curiosa no Evangelho de Mateus que parece pequena, quase doméstica, mas guarda uma profundidade imensa.
Tudo começa com um silêncio.
Zebedeu estava no barco trabalhando com seus dois filhos quando Jesus Cristo passou. O chamado foi imediato. Os rapazes largaram as redes e foram atrás dele.
O Evangelho não registra nenhuma palavra do pai.
Há silêncios que são consentimento. Outros são sacrifício. Talvez aquele fosse os dois.
Zebedeu fica no barco: silencioso, como a confirmar o seu nome. O nome é uma parte de tudo o que existe; inclusive de Deus. Zebedeu sabia tanto de si que se justificou na cena: devolveu os filhos a Deus, que os presenteara. Como Deus receberia, depois, seu próprio filho, devolvido salvador do mundo.
Algum tempo depois, surge outra figura nessa mesmahistória, integrando-a: a mãe.
Ela não tem nome no texto. É apenas “a mãe dos filhos de Zebedeu”. Como acontece muitas vezes na história antiga, os homens guardam os nomes; às mulheres fica a condição essencial: mãe.
Diferente do marido, ela fala. Aproxima-se de Jesus, ajoelha-se e faz um pedido:
— Que estes meus dois filhos se sentem, um à tua direita e outro à tua esquerda no teu reino.
Durante muito tempo essa frase foi lida como ambição.Aquela mulher anônima pareceu pecadora. Um pedido de privilégios. Mas há um detalhe decisivo.
A cena ocorre logo depois de Jesus anunciar algo terrível: que seria entregue aos poderosos, condenado e crucificado.
Portanto aquela mulher não estava pedindo ministérios num reino terrestre. Ela acabara de ouvir que o destino daquele homem seria a morte.
Mesmo assim pede que seus filhos estejam ao lado dele.
Jesus não responde à mãe.
Olha para os dois filhos e pergunta:
— Podeis beber o cálice que eu vou beber?
Na linguagem bíblica, o cálice é destino. Muitas vezes destino de sofrimento.
Eles respondem sem hesitar:
— Podemos.
A resposta é tão simples quanto terrível.
Jesus então diz:
— O meu cálice vós o bebereis.
E de fato beberam. Tiago seria o primeiro apóstolo martirizado. João terminaria seus dias no exílio profético e apocalíptico.
Mas Jesus acrescenta algo que parece enigmático:
— Sentar à minha direita e à minha esquerda não cabe a mim conceder.
A frase só ganha pleno sentido mais tarde: no momento da crucificação.
Quando Jesus é erguido na cruz existem dois lugares ao seu lado: um à direita e outro à esquerda. Mas quem ocupa esses lugares não são discípulos. São dois condenados.Talvez aquela mãe imaginasse tronos.
Jesus sabia que ao seu lado só haveria cruz.
E assim a cena se completa entre o silêncio e a fala.
O pai que cala e entrega os filhos ao destino.
A mãe que fala e pede apenas que eles permaneçam próximos daquele a quem foram entregues.
No fim das contas, talvez seja essa a verdadeira pergunta do Evangelho.
Não quem ocupará os lugares de honra. Mas quem estará disposto a permanecer ao lado de Cristo quando o lugar já não for um trono — e sim uma cruz.
Maria, aos pés da cruz, foi só ouvidos, mas João, o filho de Zebedeu, também ouviu a sentença de Jesus para si, o discípulo amado, ao receber Maria, com nome próprio,como mãe adotiva àquela mulher que reclamara o seu destino:
— Mulher, eis o teu filho!
— Eis a tua mãe!
Jesus respondeu por todas as mães, inclusive a minha, naquele instante, como respondera a mãe dos filhos de Zebedeu, que estava presente na crucificação.
Tudo estava certo — como no concerto eterno ou no esplendor da luz perpétua a que tanto se referia o meu pai.
Nunca esqueço que o Padre Marcelo, da Igreja de Guadalupe, em Brasília, vendo-me aos prantos, reclamando da orfandade infinita, deu-me filho adotivo de Maria.
Daquela confissão (que eu me lembre, a primeira), saí com um verso:
Deus levou a minha mãe
pra fazer uma Maria.
E a Virgem Nossa Senhora,
como mãe me adotaria.
No lago da Galileia, entretanto, é João que reconhece Jesus ressuscitado.
Aquela mãe pediu e recebeu a glória – para os seus filhos.
De Ampulheta de Estrelas
Páscoa ou a mãe dos filhos de Zebedeu.
Pegue a chave do perdão,
abra a porta,
apague a sombra
e deixe que o passado,
lhe esperando,
seja o futuro,
na volta.
Mas não olhe mais para trás.
O silêncio cúmplice
de Zebedeu
foi ouvido por Cristo
na fala da mãe dos
filhos pescadores.
Quando estava na cruz,
Jesus ouviu-se intermediário,
na silenciosa oração de Maria,
de tudo o que uma mãe sentia.