Tanahora era obcecadamente pontual, mesmo para chegar ao ensaio do seu bloco, antes do Carnaval, era o primeiro, para o início, e sempre não o último a sair, no momento de voltar para casa, precisamente quase no fim, achava os ponteiros do relógio muito lentos. A cada dos seus costumes tudo tinha uma hora. Para isso usava dois relógios de pulso, da mesma marca: Lanco, 17 rubis, para ser preciso; vivia com os dedos nos pivôs, um no braço esquerdo e outro, no direito, ambos marcando os mesmos minutos, quase iguais segundos, mas cumprindo os compromissos.
Porém, desde o último Carnaval, sua companheira andava se queixando das suas pontualidades, e se apaixonou por um impontual; depois de perder tal fiel namorada para um colega de bloco, deu a neura, deixou de ser normal ou talvez, por assim dizer, anormal. Mesmo ainda dormindo e tomando banho com os relógios nos pulsos, começou a não dar importância ao tempo; a não distinguir hoje de ontem ou de amanhã e até onde de quando. Parece até que deveio uma pedra de existência atemporal, indiferente ao que passou ou ao que passará.
Para os negócios ou para os prazos jurídicos, nem se lembra que estudou ser o direito dependente e regido pela lei e pelos prazos, tornando-se assim, nesses aspectos, um verdadeiro irresponsável. E no mundo amoroso, um ingrato, ao dizer que vai e não vai, como qualquer hora fosse circunstância para amar. Justifica que chegar depois do que prometeu às pretensas amadas não tem nada a ver com sua quantidade de amor, sobretudo porque, não raras vezes, também chega antes ou muito antes. Depois, passou a não se perturbar com o acontecer ao correr do tempo, indiferente a ele, argumenta: Tempus currit. Só não perde avião, quando, não olhando a passagem, chega com muita antecedência ou quando alguém lhe avisa que seu nome foi já várias vezes chamado pela última vez. Contudo, já teve a sorte de perder até avião que caiu.
Na maioria das vezes, chega muito depois, e fica todo mundo dizendo que ele fareja o que lhe é conveniente ou favorável, atrasa-se no momento das obrigações ou adianta-se nas circunstâncias das vantagens, manifestando o oposto a qualquer manifestação de interesse ou de loucura. E até filosofa, contradizendo o conceito de que a circunstância possui força determinante ao que tem de acontecer, mas ao contrário, o azar ou o acaso lhe dá muito bem para si o que vai ser ou o que poderá ter. Enfim, chegar atrasado rende tempo de sobra…
Segundo especialistas da mente, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, sua anormalidade é coisa atípica, nada de loucura, até certo modo um homem inteligente. Houve amigos que o conheciam dizer tratar-se, segundo exobiólogos, de sintoma extraterrestre, de gente super evoluída, que, ao perder seu planeta, veio para cá, superando-se em relação ao tempo e ao espaço, contudo adaptando-se entre nós. Vive sem hora de dormir, de acordar ou de comer, muito menos de fazer amor, sendo isso até inconveniente, em ocasiões sociais, sempre alertado por ela: – Agora, não! Mas, se ela for insistente ou convidativa, não se faz de rogado, arranja o momento adequado. Desleixado, Tanahora assumiu um radical otimismo para imbróglios e mais difíceis tarefas.
Sua conduta é curiosidade daqueles que cuidam dos males da época: Indiferente ao relógio, nunca mais teve estresse e também nunca mais lhe faltou tempo. Vive sorrindo nas horas embaraçosas, e quando não cumpre suas responsabilidades, é apelidado de “maluco beleza”. Não é um qualquer, admirado como exemplo do Excêntrico Mr Blue, de Myles Connolly, ignora quando nasceu, assim, aceita não saberem seu aniversário, não vive mais a contar o passar das horas, nem o dos dias, tampouco distinguirá o fim do Carnaval da quarta-feira de cinzas.