Vinicius de Moraes, no seu original poema “O Dia da Criação”, canta versos rimando as madrugadas, do nascer ao morrer do Sol, misturando pecados e virtudes, novenas e bares; escolas e prostíbulos, como se fossem essas coisas obras da criação; durante tantas horas, exalta o sexto dia da criação, como ele atribuísse a causa e o fim dessas santas e pecaminosas criaturas à perfeição do último dia, indo e voltando, no canto de uma repetida jaculatória: “porque hoje é sábado”.
Esquentaram as cuícas e os tambores, até num ritmo místico sem melodia; treinaram as mulatas e os mulatos; desceram do morro à compra de enfeites, e depois de cansativos ensaios, em iguais e diferentes passos, em medidos espaços e movimentos, construíram escolas e blocos numa bela alegoria. Tudo pronto para o desfile, para suarem à luz do Sol e da Lua, bem mais do que o suor do trabalho para o pão nosso de cada dia. Porque hoje é sábado, porque simplesmente hoje é carnaval, como se agora acontecesse uma simbiose poética do porque hoje é sábado com o porque hoje é carnaval. E não se fale de que isso é ilusão, porque simplesmente hoje é carnaval…
Esqueceram tudo, entraram num transe frenético de braços e de pernas bailarinas pela avenida. Acompanharam desacompanhados, casados e separados, vestidos sem distinção dos sexos, vagueando sem destino, cantando a memória de marchas antigas e frevos do passado, quando a vaidade e a competição gritaram os novos sambas-enredo. Os mascarados, de ousados comportamentos extravagantes, não se censuram além ou debaixo da linha do Equador. Existe pecado? Não, simplesmente porque hoje é carnaval.
Atraem, pela TV, multidões para verem sempre a mesma coisa de outros carnavais que já se foram, como se fossem sérios adultos vestidos de sacerdote ou de freira, de qualquer gênero, mas com caras de orgia, portando plaquetas com profanas palavras, ou gestos que exprimem o que sempre foi reprimido. Sem ensaio, cotejam aqueles do autêntico carnaval, com e sem qualquer fantasia, roupas de molambo e chapéus esfarrapados. O grotesco ou o ridículo provoca risadas ou gargalhadas, simplesmente porque hoje é carnaval.
O carnaval se justifica: ninguém é de ferro para suportar o peso do ano inteiro com tantas amarras, faltava folia de três dias para cantar, dançar e brincar. Enfim, a humanidade, como se fosse uma terapia, sempre recorreu a folguedos para exorcizar fantasmas e angústias, definindo-se isso num justificado “porque hoje é Carnaval”. Sem pedir licença, lá vêm Chico Buarque e Zé Kéti: “(…) Quem é você, diga logo/ Que eu quero saber o seu jogo (…)” e “Vou beijar-te agora/ Não me leve a mal/ Hoje é Carnaval! …”
Dizem por aí “o que é bom dura pouco”, pois é, até carnaval que se acaba na quarta-feira de cinzas. Pierrô chorará a ausência de Colombina; cairão máscaras, eflúvios, lágrimas, sorrisos, mentiras e juras de amor. A realidade voltará à rua, com ressacas, trabalho, responsabilidades, traições, saudades, ou alguns arrependimentos. Alguns resistem dançando… Mas, valeu a pena, se, no carnaval, tiver nascido ou renascido alguma história ou renovação de amor.
Assim, nossas vidas estão em movimento, assim estamos vivendo… E algumas coisas nos confundem, inclusive o carnaval, que é mais agitação do que movimento. Não confundam agitação com movimento, mesmo quando hoje for carnaval, porque já dizia o poeta Daniel Lima: “O movimento é sempre criador; a agitação, cansativa.”