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Blog do Vavá da Luz

“Me sentia uma morta-viva” (Fernando Patriota)

Ana Karolina Queiroz, paraibana de 41 anos de idade, alerta que a violência psicológica mata tanto quanto à física, e o feminicídio psicológico é real. “Eu passei por isso durante 14 anos de casamento. Cheguei a me considerar uma morta-viva”, revela. Mãe de duas filhas e um filho, depois de ter passado por uma sequência de eventos violentos praticados por seu ex-marido, ergueu a cabeça, refez a vida, se formou em Gestão Comercial e, hoje, ajuda outras mulheres que sofrem violência, mal enraizado na cultura machista.

Em uma entrevista concedida no Centro de Referência da Mulher Ednalva Bezerra, em João Pessoa-PB, Ana Karolina revelou que desde a infância teve que enfrentar vários tipos de abusos. “Tive um namorado que praticava violência psicológica, travestida de ‘cuidado’. Hoje, a gente consegue entender que esse cuidado é, na verdade, violência moral, sexual e patrimonial. E quando casei, aos 25 anos, essa história se repetiu. O ‘príncipe encantado’ chegou oferecendo o amor e, de repente, começou a me sufocar, exigir e humilhar”.

Ela disse que durante o casamento ouvia do marido que toda aquela atitude violenta era por cuidado, era segurança. “Para ele, eu era indefesa, inocente, e o homem é quem sabe proteger da violência do mundo. Eu escutava dele: ‘O seu mundo não existe, o mundo não é assim. O mundo é cruel’”, lembra Ana Karolina, que até hoje vive sob medida protetiva.

A partir dessas atitudes agressivas, a vítima passou a estudar sobre relacionamento abusivo, violência doméstica, narcisismo e psicopatia. Karolina passou a perceber que tinha perdido sua identidade e precisava não só de orientação espiritual, que já tem, mas de apoio psicológico. “Apesar de ser cristã, eu já não me encontrava mais e queria compreender aquele processo. Não tem como a gente amar o próximo se a gente não se amar”, afirmou.

Traição e proteção – Além de toda humilhação e privacidade, Ana Karolina disse que foi traída e sofreu violência sexual do seu ex-marido. “Deixei de ser esposa, para ser amante”. Na terceira vez que seu ex-marido saiu de casa e voltou em plena terça-feira de Carnaval, ela decidiu por um fim ao sofrimento. “Nesse dia, sofri violência sexual. Ali, determinei que não queria mais nada com aquele homem”. Para enfrentar a situação, ela passou a fazer terapia, onde compreendeu os níveis e os tipos de violência que foi obrigada a conviver.

Numa tentativa desesperada de reconciliação, o ex-marido de Karolina deixou de pagar as contas de aluguel, água, energia elétrica e ainda despejou a vítima da casa onde morava. Isso só fez piorar as coisas. “Até no meu restaurante, que tínhamos à época, fui impedida de trabalhar. Ele também tomou carro e moto. Pura violência patrimonial. Além de tudo isso, ele fez um dossiê contra mim e passou para meus filhos, o que caracteriza alienação parental. A partir do momento que me posicionei, me senti livre de um cativeiro”, frisou.

Ela afirmou que se continuasse naquele ambiente, alguma coisa ainda mais grave poderia acontecer. Foi quando Ana Karolina acionou os serviços da Ronda Maria da Penha e o Centro de Referência da Mulher. “Na delegacia, me perguntaram se eu queria o patrulhamento e o atendimento da Ronda, e aceitei. Com essa assistência do patrulhamento, me sinto mais segura. Hoje, tenho um número que eu posso ligar, na hora em que eu precisar e tenho assistente social e psicóloga para cuidar de mim, gratuitamente, desde abril de 2024”, relatou.

“Torno minha situação pública, em homenagem às mulheres que sofrem violência, mas, principalmente, pelas minhas filhas e enteada, por minhas irmãs, minha avó e, sobretudo, minha mãe”.

Efeitos nocivos – A psicóloga clínica e hospitalar e coordenadora Multiprofissional do Serviço de Violência do Instituto Cândida Vargas, Sandra de Oliveira Garcia, o termo ‘feminicídio psicológico’ é utilizado para chamar a atenção aos efeitos nocivos da violência psicológica extrema e contínua em relacionamentos abusivos. “Por ser mais sutil e da ordem da invisibilidade, é mais difícil de identificação e antecede agressões físicas graves e o próprio feminicídio em si”, afirmou.

Sandra Oliveira alerta que o feminicídio psicológico começa de forma leve, quase imperceptível, mediante atitudes de ridicularização e desqualificação dos sentimentos, dos desejos e das decisões da mulher, para manter o controle disfarçado de ‘cuidado’, como a vigilância frequente das companhias, vestimentas, das redes sociais e um ciúme exagerado que sufoca a mulher.

Os impactos emocionais e mentais do feminicídio psicológico são devastadores e não surgem todos simultaneamente, mas se acumulam e se intensificam com o passar do tempo. “Destacam-se transtornos de saúde mental, como quadros de ansiedade, sintomas pertinentes ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, distúrbios alimentares e do sono, estado de confusão mental e perda da autoconfiança e da autonomia e até mesmo a ideação suicida”, classificou.

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