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Blog do Vavá da Luz

Barra do Camaratuba (Frutuoso Chaves)

barra camaratuba paraiba
u e o cacique Heleno mantivemos boa conversa à beira de um riacho com as águas mais cristalinas já vistas, no litoral paraibano, por meus olhos agora octogenários. O bate-papo, entre outros temas, envolveu o índio Felipe Camarão, nascido Potiguaçu, o importante líder militar aliado dos portugueses contra os holandeses, no início do Século 17.

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Imagem: F. Chaves

Potiguara, como o guerreiro famoso, Heleno, ainda, hoje, não gosta dos tabajaras, gente, à época, mais chegada às tropas de Maurício de Nassau. Ficou interessadíssimo nas Capelas da Batalha e do Socorro, situadas entre Santa Rita e Cruz do Espírito Santo, ao saber que a área foi palco do confronto ganho por um contingente português graças à chegada repentina de Felipe, com seus índios e seus tiros. Entre os holandeses, então sob fogo cruzado, quem ali não morreu, fugiu. Ambas as capelas foram erguidas em cumprimento de promessa feita por um lugar-tenente do Capitão Rebelinho, a quem os céus concederam a graça da vida.

“Vou juntar uns amigos numa van para irmos até lá”, disse-me. Nossa conversa transcorreu diante da sua casinha de taipa e foi ouvida por um dos filhos que ali descera do carro seminovo com a mulher, um menino pequeno e a sogra. A exemplo dos irmãos, o moço tem emprego e salário em João Pessoa.

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Imagem: F. Chaves

Heleno chefia a Aldeia Cumaru, a primeira para quem atravesse o Camaratuba, o rio que separa Mataraca da Baía da Traição. Dona Miriam, nosso único neto, dois dos nossos três filhos, as duas noras e uma irmã minha aproveitavam o riacho. Saguis desciam das árvores, enquanto isso, em busca das mangas postas à venda pelo chefe, à beira da estradinha de barro.

Que lugar bonito! Não fomos até à Lagoa do Encantado que dizem de água ainda mais límpida, pois tínhamos horário marcado para o catamarã que nos conduziria de volta, no belo domingo de sol, à Barra do Camaratuba, o distrito de Mataraca que, desse modo, toma o nome do ponto onde o rio se entrega ao mar.

Havíamos ali chegado na sexta-feira passada para três dias no povoado, não muito mais do que uma vila paradisíaca de pescadores, no limite da Paraíba com o Rio Grande do Norte. Não aconselho o mar aberto a quem não for surfista. Mas afirmo que ninguém sentirá falta disso. A foz do Camaratuba, com suas águas calmas, suas piscinas naturais, suas dunas, seu manguezal 

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Imagem: F. Chaves

e suas ofertas ao turismo ecológico, satisfaz todas as necessidades.

O que ali você terá é um dos pontos mais desabitados do litoral paraibano. É o Parque do Caranguejo-Uçá. As grandes hélices de energia eólica que se estendem até o Rio Guaju, a parte mais ao norte, não incomodam os visitantes, estejam no perímetro urbano, estejam na barra do rio. Ainda no asfalto, a caminho do vilarejo, seu carro passará a poucos metros de vários desses imensos cata-ventos enfiados no canavial.

Não são poucas as opções de pousadas, quase todas rústicas, focadas no ecoturismo e no sossego. Em sua maioria, as instalações são pequenas e apropriadas aos casais. Mas para lá não vá sem reserva antecipada, sobretudo, nos feriados.

Gostei do aviso na pracinha: “Proibido paredão”. Trata-se, para quem disso não saiba, da aparelhagem de som enorme, fonte daquele barulho dos infernos que 

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Imagem: F. Chaves

nos agride os tímpanos e testa nossa paciência.

A busca pelo jantar da sexta-feira nos levou a uma peixada saborosíssima. Outros visitantes nos disseram que estaríamos bem-servidos sem a opção por frutos do mar. Ali, uma galinhada cairá muito bem se você dispensar a sofisticação, as ervas finas, a complexidade dos pratos. Lembre-se de que está num lugar onde essas aves ciscam o chão, correm em campo aberto e têm a carne rija. Não precisam mais do que tempero caseiro.

Faça um passeio pelo Rio Camaratuba e jamais disso você esquecerá. Do lado esquerdo de quem rompe a correnteza (beirada da Baía da Traição, onde descendentes indígenas vendem artesanato), a retirada de pés de pau é permitida no limite exato da necessidade de treze aldeias. Do lado direito, área de preservação rigorosa, nem isso.

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Imagem: F. Chaves

No percurso, você pode ver capivaras e garças azuis. E aprende que não são raízes expostas na maré baixa o emaranhado de ramos que sustentam aquelas árvores. Ao contrário, são galhos que crescem para baixo a fim de apoiar o tronco principal e sua copa em terreno frouxo e lodoso. Será assim com todos os manguezais do Brasil: uma adaptação milenar de espécimes asiáticos cujas sementes atravessaram os oceanos, após a última era glacial, para a vida exuberante em clima tropical e solo instável.

Em dado momento, penetrados três, ou quatro quilômetros, no mangue, Igor ou Paulo, pilotos de catamarãs, convidará você ao mergulho nas águas turvas do Camaratuba, então pela cintura e agora menos salinas. E lhe recomendarão a lama em proporção cosmética, posto que medicinal.

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Imagem: F. Chaves

Prefere algo mais aventuresco? Neste caso, faça um passeio com flutuação. Ou seja, percorra, sempre com um guia, um dos braços do mangue até que seus pés não mais toquem o chão arenoso, dada a profundidade. Será chegada a hora dos macarrões de piscinas. Deite neles e flutue ao sabor da corrente.

E se sinta mais livre, leve e solto, ao chegar em casa.

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