Como toda cidade do interior, um ano inteiro se aguardava a chegada da Festa da Padroeira, que em Boqueirão acontece no mês de janeiro.
Nem bem se deixavam findar os festejos de Natal e Ano Novo, lá em Boqueirão já começava a festa de Nossa Senhora do Desterro.
Uns quinze dias antes da festa, começavam as novenas na Matriz, rezadas diariamente, homenageando pessoas e comunidades. E, para desespero dos pais, chegavam os parques de diversões, que eram a alegria das crianças e o terror dos adultos.
Tinha as famosas canoas, aviões, espalha-brasa, onde o responsável pelo recebimento dos ingressos não aguentava mais a mim e a mais três, que estávamos lá todos os dias a perturbar.
A noite começava cedo: um passeio na pracinha, uma entrada na igreja para ver a novena. Lembro bem das cantoras da igreja e dos belos hinos que ainda hoje trazem recordações mil. As cantadeiras e beatas caprichavam nas novenas, e a igreja lotava toda noite.
Eu, curioso como muitos, na minha infância nunca entendia por que rezavam todos os dias do mesmo jeito…
As famílias subiam as ruas passeando pelas calçadas; todos se cumprimentavam com sentimento de pertencimento. Muitos sentavam nas frentes de suas próprias casas, e era uma festa esses cumprimentos e reencontros.
Tudo era muito alegre e bom.
Mas ainda faltava chegar o grande sinal de que a festa estava acontecendo: a nossa filarmônica descer a rua, a nossa “banda”. Quando o maestro passava regendo e a banda tocando, eu logo me garantia de que a festa tinha começado — e eu, um guri, já começava a sentir saudades.
Os dobrados executados e os acordes tocados, até hoje, quando escuto, me fazem sonhar e marejar os olhos.
E as paqueras começavam na medida em que a noite adentrava. Os visitantes, os filhos que estavam fora e chegavam… A descida do ônibus lotado vindo de Campina Grande já mostrava que a festa ia ser grande.
Os amigos que só se encontravam na festa chegavam para contemplar a saudade de tempos bons.
As famílias reunidas, a saudade de quem não estava mais entre nós, a alegria recheada de saudade que ri e chora.
Quem foi ao forró no CineArt, cinema local, à boate Passa e Fica, a Zé Cosme e à Distack sabe: foram as maiores e melhores festas que já fui na vida.
Ainda teve, numa dessas festas, a noite do clube com o show de Miss Lene.
Chegava o sábado da festa: noite de tudo, da apoteose, do leilão no pavilhão, da disputa do cordão Azul e Encarnado — e daí saía a rainha da festa.
As comidas da festa, as barraquinhas, o galeto assado… Pelas ruas se amontoavam vendedores, misturando o cheiro das galinhas torradas com batatas bem coradas, o cachorro-quente que jamais esfriava e as batatinhas fritas sem igual.
Em meio a tudo isso, os perfumes das moças traziam a harmonia da noite e também o cheiro da festa.
Os namoros atravessavam a noite, varavam a madrugada; subia-se o balde do açude para ver o nascer do sol.
Tudo isso era muito testemunhado pelas fofoqueiras de plantão, que se alocavam em recantos que só a festa de janeiro revelava.
Alguns lugares da cidade eram apreciadíssimos na noite da festa: a lavanderia, os becos de acesso às ruas (disputa de metro quadrado) e o rio atrás da rua, que tinha cenário de cinema em dia de lua cheia… Quem disso desfrutou sabe do cenário que jamais se apaga.
No domingo da festa, o acordar era com a alvorada; a banda passava tocando coisas de amor… A cidade acordava e a missa começava às 10h.
O almoço no domingo era uma festa, mas não se podia beber, pois logo começava a procissão.
Depois, começavam as despedidas de quem ia viajar de volta. A saudade doía, mas ainda tinha a última noite da festa no domingo, com a apuração do resultado do pavilhão.
A procissão é fé. A multidão caminhava pelas ruas. Destaque para as imagens em cada traço das principais ruas da cidade: fé, saudade, amor, amizade e muita alegria.
Tinha uns jornais da festa, que eram pura encrenca: todas as fofocas publicadas — até o impublicável. Em tempos de hoje, isso seria o WhatsApp.
Chegava o final da festa.
A cidade adormecia com uma certeza: no próximo ano teremos festa novamente e a oportunidade de viver tudo isso.
Basta amar Boqueirão, querer o bem e praticar o exercício de viver a vida.
Tchau, vou para Boqueirão. Começou a festa 2026.
De um dia de domingo
Carlos Marques Dunga Jr