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Era apenas uma “deiton”

Papai no balcão da mercearia, a dayton ao seu lado esquerdo - TB
Papai no balcão da mercearia, a dayton ao seu lado esquerdo – TB

HOJE EU QUERO FALAR a história de uma velha balança que chamavam de deiton (Dayton). Essa era a fábrica daquele instrumento de pesar. Era “vremêia”, como dizia meu saudoso vizinho Manoel Bracim. Eu, guri com meus oito ou nove anos, que não sabia muito dessas letras incorporadas ao nosso alfabeto daqueles tempos (nesse caso o “y”), não entendia direito e dava até um certo trabalho em ler. O “W”, eu sabia que era um “V”, mas na escola era usado como “U” por um colega chamado Wilson. Abecedário à parte, no balcão de uma sortida mercearia que papai tinha, lá estava a balança Dayton, pintada em um vermelho vívido em quase todo seu corpo.

 
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Esse tipo de balança era comum em bodegas dos bairros da cidade, não só um elemento de destaque, mas talvez o utensílio mais caro para aquele labutar. No alto, na carenagem arqueada, um ponteiro balançava entre 0 kg e 5 kg em uma espécie de quadrante, e a graduação aumentava a partir da mudança de posição de um cilindro robusto que proporcionava pesar até 15 kg de cinco em cinco. Logo abaixo desse ponteiro, havia um espelho bem redondo, mais brilhoso do que tinha no banheiro. Era por ele que eu dava uma última reparada no cabelo e arrumava os óculos antes de ir para a escola.Era também em seu reflexo que eu via quem chegava e se escorava no balcão da mercearia.

Havia uma base, um prato laminado e grosso, ali só poderia pôr as coisas para determinar seu volume, nada mais. Teve uma vez que eu levei um carão danado de seu Paulo Roberto, meu pai, porque botei nele umas garrafas. Estava eu a limpar uma prateleira e, com medo de quebrar os “cascos” de vidro, achei por bem repousar os litros na base da Dayton. A bronca era para que o ato indevido não desregulasse o bom funcionamento da “bichinha” e era caro chamar alguém para fazer o reparo.

 
“A ‘deiton’ é apenas uma fotografia no álbum, mas como dói” - TB
“A ‘deiton’ é apenas uma fotografia no álbum, mas como dói” – TB

Aquela balança, muda, calada, vivia a observar o dia a dia de nossa rua. Cada vizinho que chegava e partia, cada poeira que o vento levantava, cada pipa que subia; ela testemunhava olhares, era confidente de amores e também de intrigas. Seu espelho, um olho em que ela tudo via. Como diz a encantadora canção atribuída a Villa-Lobos: “Se essa rua, se essa rua fosse minha…”, eu sou capaz de afirmar que a memorável Dayton era uma de suas personagens não menos importante.Lá no início de tudo, na primeira versão da mercearia, quando era apenas uma pequena bodega, ela vivia no balcão, a 1 m da calçada; exposta na porta, levando o sol que fazia com que suas peças ficassem ainda mais reluzentes. Ali também era a garantia de que a clientela conferisse de perto a carne de charque, sardinha à granel, mortadela, tudo grama por grama. Tempos depois, a balança foi para um balcão menor, mais para os fundos, perto do freezer. O lugar ofertava mais espaço para enfileirar dois ou três fardos daqueles de 50 kg de feijão, açúcar, arroz e toda sorte de estivas. Muitas vezes eu quem pesei aqueles cereais.

 
A balança "gatilho" da lembrança na Feira da Prata, foi ela que acariciei - TB
A balança “gatilho” da lembrança na Feira da Prata, foi ela que acariciei – TB

Companhias graciosas de Pastor Pedrinho (Preto), meu Tio Calunga (boné), Cunha e Daniel Duarte (chapéu de vaqueiro) – TB

Domingo passado estive na Feira da Prata e, em sua feira de troca, vi uma balança parecida, só que de marca Filizola e sem os espelhos. Estava exposta em uma lona no asfalto da rua para quem passasse. Meus olhos brilharam. Fiquei comovido. Me agachei, a toquei devagar como se fizesse um carinho e fotografei. Revendo uma foto de papai na mercearia ao lado dela e inspirado na confissão de Drummond de Andrade sobre sua Itabira (MG), pensei: a “deiton” é apenas uma fotografia no álbum, mas como dói.

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Publicado na coluna ‘Crônica em destaque’ do Jornal A UNIÃO em 02 de agosto de 2025.

Por Thomas Bruno Oliveira

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