Não são fáceis a preservação e a sinceridade de uma verdadeira amizade. Há quem diga que os verdadeiros amigos ou amigas contam-se com os poucos dedos da mão. Definem-se no diálogo da raposa com o Pequeno Príncipe, em Antoine de Saint-Exupéry: trata-se da amizade que é vista no seu essencial, “invisível aos olhos”. Mesmo assim, numa amizade de reciprocidades, o visível é que uma relação entre duas pessoas é mais do que complicada, e complicadíssima se de convivência quotidiana, como é o caso de conjunção de duas pessoas, quando oportunizam muitos e muitos constrangimentos, dos quais relampagueia até violência constrangedora.
Numa isolada ilha, viver sozinho torna-se difícil e até insuportável, porque carece de relacionamento humano, mas essa fragilidade cresce na proporção em que aumenta o número de pessoas, que não deixem de ser indivíduos que discutem, em assuntos diversos, geralmente motivando discórdias e atritos por razões fúteis, sem os devidos cuidados com a preciosidade da amizade; preciosa como um jarro de raro cristal, que merece todo um espontâneo e atencioso cuidado. Discutir é normal e inevitável, sobretudo porque ninguém é igual ou pensa igualmente a alguém. E porque também, numa recíproca amizade, a razão, de que alguém está mais “certo” do que o outro, ignora a coexistência da dúvida com a certeza…. As incertezas motivam as dúvidas, que, filosoficamente, provocam-nos encontros com a certeza
Nem tudo é racional, como se fosse alimentado pela fé ou pela confiança, compreendem-se a dúvida e os caminhos à certeza pela fé, pela confiança, quando aparece o que estava talvez escondido: o amor. É dele que surgem os benefícios maiores aos suportes da amizade. E sendo essencial, age de forma invisível. Nesse contexto, os humanos não se distinguem apenas como razão, mas, também, como sentimento, simbolizado pelo coração, que se alegra e alegra a vida, nas sensações presentes e futuras de felicidade. Os pais poderiam ter essas marcas, e assim serem marcantes aos filhos, o que preencheria o destino da criança, marcando o que se tornará na vida, inclusive honrando a preciosidade da amizade, que deve lastrear a sã convivência familiar.
Esse amor esquenta também a nossa alma, que há naquilo que nos une e nos une, tornando-se uma unidade, misteriosa, sagrada, e que bem-aventura os que se amam ou quando nos amamos. Quando fazemos com amor o que, com amor, conhecemos, tudo passa a ser unidade com tudo o que conhecemos e, sobretudo, a fazer parte do nosso sentido da vida, que se entrelaça com as amizades, suas preciosidades, seus nexos e desconexos.
Até no trabalho profissional, podemos sentir o que acima se chama de essencial; de amor como fonte de contentamento e de satisfação interior. O pintor, que trabalha meses numa grande tela, talvez, dentre outros objetivos, o de tornar-se admirado e tocar o sentimento artístico dos que irão se emocionar com sua tela, certamente sentir-se-á alegre e feliz, esquecendo os momentos de fadiga, do peso daquela obra, do cheiro insistente das tintas, e das vezes em que pensou em prolongar os intervalos de descanso. Porque o amor ao seu trabalho, à sua obra, e à finalidade da sua arte farão parte das suas amizades, da sua vida onde haverá beleza e poesia, sobretudo quando o artista é também amigo
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